JUSTIÇA ACIMA DE TUDO
     
 

Myrna Silveira Brandão


Michael Kohlhaas, de Arnaud des Pallières – até então, sobretudo realizador de curtas-metragens e documentários para tevê – causou surpresa quando foi selecionado como um dos títulos concorrentes à Palma de Ouro no último Festival de Cannes. 
 
Ambientado no século 16, o filme é baseado na história verídica de um comerciante alemão, em Cévennes, que depois de um barão local apreender seus cavalos, tenta reparação nos tribunais públicos antes de iniciar uma verdadeira guerra em busca de justiça e para recuperar seus direitos.
 
Adaptado do livro de Heinrich Von Kleist (1777-1811), – a história é a refilmagem de O Tirano da Aldeia, dirigido pelo alemão Volker Schlöndorff.
 
Em 1969, quando realizou o filme, Schlöndorff acrescentou imagens de noticiários mostrando protestos estudantis em todo o mundo, para fazer um paralelo direto com a agitação de 1968.  Pallières, ao contrário, parece ter sido  mais inspirado pela belíssima paisagem das locações do que pela história ou quaisquer comparações contemporâneas.
 
O diretor diz que contar a história de Michael Kohlhaas era um projeto antigo, mas levou um tempo para que ele se sentisse em condições de realizá-lo.
 
“Eu tive muito dificuldade para entender e avaliar a complexidade do personagem. Li essa história quando era ainda muito jovem e estava começando meus estudos e senti, de imediato, quão complexo e rico ele era, mas não me achava maduro o suficiente para realizar alguma coisa com ele. Agora, achei que era tempo de fazê-lo”, ressalta des Pallières explicando porque aprofundou o foco do filme em aspectos mais visuais do que históricos.
 
“Eu procurei algo que fosse semelhante à história como aconteceu. O que me interessou nos cenários naturais era que eles transmitiam os sentimentos dos personagens. Tentei me aproximar da obra revolucionária de Kleist, as coisas que ele tinha em mente e, para isso, a paisagem das regiões de Vercors e de Cévennes foi fundamental”, destaca.
 
Sobre a adaptação livro para as telas, des Pallières diz  que ela reflete sua interpretação pessoal.
 
“Alguns momentos do livro me abalaram profundamente como, por exemplo, um homem que renunciava ao poder por honestidade e rigor. Alguns outros personagens também me sensibilizaram muito e, por isso, tem um destaque maior no filme. Enfim, eu procurei realizar um Kohlhaas de acordo com minhas emoções e percepções”, afirma o diretor, ressaltando que a intensidade da atuação de Mads mostra o personagem tão complexo quanto ele é no livro.
 
De fato,  Mads tem uma interpretação impressionante e, conforme conta, precisou passar por uma preparação especial para viver Kohlhaas.
 
“Aprendi a falar francês o que não foi fácil, bem como aprendi a trabalhar com os outros atores. Na verdade, a partir de um determinado momento, o filme acabou por nos tocar a todos pessoalmente. Dei vida a este personagem e quero defendê-lo. Ele é um homem radical que acredita na justiça e quer encontrar os seus cavalos, mas que, na sua busca, perde tudo”, explica  o talentoso ator dinamarquês de 49 anos.  

     
AMOR E ARTES MARCIAIS
     
 

Carlos Augusto Brandão


O Grande Mestre, de Wong Kar-Wai – que agora chega ao circuito – teve seu lançamento internacional na 63ª edição do Festival de Berlim, fora de concurso.  Kar-Wai também foi o presidente do júri da Mostra Oficial do evento.
 
O filme é um drama épico de artes marciais, que se passa durante a tumultuada China dos anos 1930, inspirado na vida de  Ip Man  (Tony Leung Chiu Wai), o lendário mestre de Wing Chun, que foi também mentor de Bruce Lee. A trama envolve temas de guerra, família, vingança, desejo, memória e amor.
 
Yip Kai-Man (1893-1972) – ou Ip Man, como costumava ser chamado – tem ganhado cada vez mais atenção no cinema, incluindo a cine-série que leva o seu nome.
 
Dezessete anos depois de Cinzas do Passado, seu primeiro filme no gênero – e com sua inconfundível assinatura – o diretor traz o tema a um novo patamar, ao abordar artes marciais como pano de fundo para, como sempre, falar de amor.
 
A história gira em torno de dois mestres de kung fu: ele vem do sul da China; ela vem do norte. Seu nome é Ip Man; o dela é Gong Er (Zhang Ziyi). Na véspera da invasão japonesa de 1936, seus caminhos se cruzam na cidade natal dele, Foshan. 
 
O Grande Mestre teve quase três anos de produção e mais de uma década de preparação.
 
O elenco de estrelas, liderado por Tony Leung Chiu Wai (Amores expressos, Felizes juntos, Amor à flor da pele e 2046, todos dirigidos por Kar-wai) também inclui Zhang Ziyi  e Chen Chang.
 
O cineasta deixou a extensa colaboração que tinha com o diretor de fotografia Cristopher Doyle – fluente em mandarim e que fez oito filmes com ele – e, desta vez,  optou por Phillipe Le Sourd. 
 
O coreógrafo das lutas é o célebre Yuen Wu Ping, função que ele desempenha tanto na China como em Hollywood,  exercida em filmes como O tigre e o dragão e Matrix.
 
Em Berlim, Leung disse que precisou treinar por três anos para interpretar
Ip Man:
 
“Mas foi muito gratificante e foi o primeiro que eu fiz tendo o perfeito entendimento do meu papel”, revelou o ator, que tem um excelente desempenho vivendo o personagem.
 
Kar-wai contou que a ideia de fazer o filme era um projeto antigo.
 
“Ela surgiu em 1999, quando eu vi o super 8 da família de um grandmaster, o  único arquivo daquele mestre.  Ele tinha a responsabilidade de passar o conhecimento de kung fu, o código de honra e a técnica da luta para as gerações que viriam depois dele”, explicou Kar-wai, falando sobre as dificuldades de ter abordado o tema sem nunca ter praticado artes marciais.
 
“ Em compensação, aprendi muita coisa. Durante o filme, eu vi que os lutadores de kung fu são humildes, apesar de saberem que tem uma arma na mão.  Eu me comparo àquela criança que aparece no filme olhando os lutadores, da mesma forma que  eu fazia quando era menino”, ressaltou o diretor chinês de  57 anos. 


     
UMA VIDA DEDICADA AO CINEMA
     
 

Carlos Augusto Brandão


O Estranho Caso de Angélica, do diretor português Manoel de Oliveira, de 105 anos, o mais antigo cineasta ainda em atividade, chega ao circuito brasileiro, embora com atraso de dois anos. Antes tarde do que nunca.

O filme, que abriu a mostra Um Certain Regard em Cannes/2011, é um tributo à efemeridade da matéria e à perenidade da alma. Durante todo o desenrolar da história, há uma espécie de confronto da modernidade versus tradição, uma das preocupações do diretor.

Estrelado por Ricardo Trêpa, neto e ator constante nos trabalhos de Oliveira, o filme é a história de Isaac, fotógrafo judeu e um dos hóspedes de uma pensão num estilo chegado ao medieval.

Uma noite, ele é chamado às pressas por uma senhora (Leonor Silveira, também mais uma vez num filme do diretor), que lhe faz um pedido muito estranho: Angélica, sua filha (Pilar Lopes de Ayala) que acabara de se casar e possivelmente estaria grávida, havia morrido e ela gostaria que Isaac tirasse as últimas fotos da morta.

Ao enquadrar a imagem da jovem, ele vê no visor Angélica sorrindo para ele. A partir de então fica possuído pelo mistério da moça e começa a ser acometido por visões sobrenaturais, acentuadas pela paixão que passa a sentir por ela.

"A morte é a única condição absoluta que temos na vida, morrer é uma certeza", atesta o veterano diretor, que não gosta de fazer previsões sobre seus próximos projetos.

"Não sei dizer o que farei mais adiante. Nunca sabemos o que o destino nos reserva", ressalta o cultuado cineasta, que tem um documentário preparado desde 1982 – com o título provisório de Memórias e Confissões – mas que, segundo sua expressa orientação, somente poderá ser concretizado após sua morte.

O incansável Oliveira, no entanto, autor de mais de 60 trabalhos, não para e vem realizando uma média de dois filmes por ano.

Além de suas produções individuais, em 2007 ainda encontrou tempo para integrar o projeto coletivo Cada um com seu Cinema, que reuniu 33 diretores e teve a participação de Walter Salles, com A 8944 km de Cannes. Oliveira participou no segmento Rencontre Unique.

O Estranho Caso de Angélica traz no elenco a brasileira Ana Maria Magalhães, no papel de Clementina, uma engenheira, e é coproduzido por Leon Cakoff (falecido em 2011) e Renata de Almeida, diretora da Mostra de São Paulo, onde Oliveira tem marcado presença em algumas edições.



     
QUANDO A ARTE IMITA A VIDA
     
 

Myrna Silveira Brandão


Filme de Valeria Bruni chega ao circuito.

A diretora Valeria Bruni Tedeschi é ítalo-francesa, estreou como atriz em 1987 em Hotel da França, de Patrice Chéreau. Depois de trabalhar com diretores renomados como François Ozon, Steven Spielberg e outros, passou para trás das câmeras e em 2007 ganhou o Prêmio especial do júri em Cannes com o filme Atrizes.

No passado, sua família deixou a Itália e foi para a França. Valeria é irmã da modelo e ex-primeira dama francesa Carla Bruni e perdeu um irmão vítima de complicações da AIDS.

Muito dessa história é contada em Um Castelo na Itália (Un château en Italie), seu novo filme, que estreia no circuito brasileiro.

Conforme descrito nas notas de Valeria para o filme, embora não se trate de uma autobiografia, é uma história inspirada, em grande parte, em episódios da vida da sua própria família.

As pessoas com quem ela escreveu o roteiro – Noémie Lvovsky (Camille outra vez) e Agnès de Sacy – também são suas parceiras em trabalhos anteriores.

O filme gira em torno de Louise (interpretada pela própria diretora) – uma atriz da aristocracia italiana aposentada há alguns anos – que inicia um romance com Nathan (Louis Garrel), um jovem ator com quem gostaria de ter um filho.

Sua mãe (vivida por Marisa Borini, mãe de Valeria na vida real), pretende vender seus bens para resolver a situação financeira da família, enquanto Ludovico (Filippo Timi), o irmão de Louise, está gravemente doente num hospital.

A caracterização dos personagens é inteligente, o tom é bem humorado, mas os temas são sérios e profundos: família, amor, casamento, doença, morte..., tudo que faz parte da vida e, em sua maioria, são inevitáveis. O cenário denso, enérgico e delicado reflete a emoção que acaba contagiando a plateia.

Valeria diz que o viés burlesco ajuda a manter o equilíbrio entre dor e humor da trama.

"Se a gente arranhar a superfície de situações da vida, veremos que o burlesco não está distante. Para mim, um dos propósitos de um ator é descobrir o seu palhaço interior e em Un Chateau... todos os atores fizeram isso. Era uma enorme diversão", revela, acrescentando que considera sua personagem um pouco desajeitada, mas que gosta dessa noção de desequilíbrio.

"Lembro-me das lições de Jacques Lecoq (fundador da École Internationale de Théatre), quando ele nos pedia para apoiar em apenas uma perna. O próprio fato de ficar desequilibrada leva a movimentos interessantes. Enfim, desequilíbrio cria performance", ressalta a cineasta, formulando uma definição para seu filme.

"É muito mais uma história de família do que uma história de amor", diz Valeria, que dedica seu filme para Virgilio, o irmão morto em 2006.

Falando sobre a natureza autobiográfica dos filmes de Valeria, Garrel diz que é muito bom quando lê um roteiro e pode dizer: este sou eu.

"Durante muito tempo, os filmes que não eram pelo menos um pouco autobiográficos, não me interessavam. Eu preciso de filmes que me façam querer viver, verdadeiros! Quando a coisa é muito artificial, eu não gosto e acabo ficando estressado", afirma o ator, complementado por Lvovsky:

"Valeria deixa espaços para a reinvenção. Ludovic, o personagem interpretado por Filippo, por exemplo, tem um relacionamento com cada uma das mulheres que o cercam – o que não estava no script inicial – mas, de alguma forma, fez tudo ficar maior", detalha a roteirista com a concordância do ator.

"Ela é uma diretora muito talentosa e lhe leva para ver coisas que você não quer ver", completa.



     
THEY CAME TOGETHER
     
 

PUBLICADA EM 24.01.14

Myrna Silveira Brandão

Novo filme de David Wain marca sua volta ao Sundance onde teve muito sucesso com Aisle Six em 1992

 
A Première, principal mostra fora de concurso do Sundance, foi criada para expor a diversidade do cinema independente contemporâneo.
 
Muitos diretores que iniciaram sua carreira no festival retornam ao evento como é o caso de David Wain, que em 1992 participou da Mostra de Curta-Metragem com Aisle Six.
 
They came Together, seu novo filme, foi mostrado numa sessão de gala no Eccles, maior cinema de Park City.
 
O filme narra uma épica love story entre Joel, um executivo corporativo da Candy Systems e Research –  uma mega cadeia de lojas de doces – e Molly, dona de uma pequena loja de guloseimas na chamada Upper Sweet Side.
 
Quando Joel é encarregado de fechar a operação da loja de Molly, uma atração inicialmente inviável acontece e eles se acham envolvidos num romance tempestuoso. 
 
A dupla preenche a tela, frequentando livrarias bonitas e cafeterias e também convivendo com os membros de suas neuróticas famílias e psicóticos ex amores. No seu caminho, Joel e Molly tem que encarar obstáculos poderosos para viver sua história de amor.
 
Realizado por Wain, o engenhoso comediante que dirigiu o cultuado Mais um Verão Americano (Wet Home American Summer), apresentado  em Sundance 2001, They Came Together presta uma homenagem às  comédias românticas ícones do cinema americano.
 
Liderado pelos seus antigos colaboradores Amy Poehler e Paul Rudde, o elenco cheio de estrelas inclui ainda Ed Helms, Cobie Smulders, Max Greenfield e  Christopher Meloni, com aparições não só hilariantes como até absurdas em alguns momentos.
 

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THE TRIP TO ITALY É LANÇADO NO SUNDANCE
     
 

PUBLICADA EM 24.01.14

Carlos Augusto Brandão

Winterbottom retoma parceria com Steve Coogan e Rob Brydon para a sequência de The Trip

Uma das características dos filmes de  Michael Winterbottom é a diversidade. Sua obra reúne filmes como Bem-vindo a Sarajevo, Crimes em Wonderland, Caminho para Guantânamo e, entre outros, O Assassino em Mim. Esse último provocou um forte impacto quando foi lançado no Festival de Sundance 2010
 
O diretor britânico retorna agora ao festival independente  com The Trip to Italy sequência do hilário The Trip com os mesmos atores Steve Coogan e Rob Brydon.
 
O filme foi muito aplaudido na sessão de gala do Eccles, o maior cinema de Park City.
 
Winterbottom reúne o par para uma nova viagem culinária refazendo, nessa sequência inteligente e mordaz, os passos dos poetas românticos da Itália.
 
Os personagens degustam refeições que dão água na boca em lugares maravilhosos da Liguria à Capri, renovando os paladares do filme anterior.  Paralelamente, discutem assuntos variados como o  registro vocal de Batman ou os méritos artísticos de Jagged Little Pill (terceiro álbum da cantora canadense Alanis Morissette e o primeiro a ser lançado internacionalmente). 
 
Mantendo o filme centrado na química perfeita entre os dois personagens, Winterbottom captura, com sua câmera, a  idílica paisagem italiana e os tesouros gastronômicos sendo preparados e consumidos por eles.
 
Além de trazer  momentos de auto reflexão para os  espectadores sobre as nuances da amizade entre os protagonistas, The Trip to Italy é uma comédia muito divertida.  O resultado é um retrato mordaz da masculinidade nos dias de hoje.
 
Winterbottom  explica como surgiu a inspiração para o filme.
 
“Eu tive oportunidade de almoçar várias vezes com Coogan e Brydon. Pude ver o quanto ficavam relaxados e aí pensei que talvez fosse divertido para eles fazerem isso também diante das câmeras”, ressalta

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ARGENTINA ESTREIA NO SUNDANCE 2014
     
 

PUBLICADA EM 23.01.14

Myrna Silveira Brandão

El Cerrajero é um dos destaques da mostra competitiva internacional dramática

Desde Rompecabezas, a diretora Natalia Smirnoff já tinha dito a que veio.  Além de ter feito muito sucesso, seu primeiro longa foi um dos candidatos ao Urso de Ouro na Berlinale 2010.
 
Agora a diretora argentina, que trabalhou como assistente de direção de Lucrécia Martel (La Cienaga), volta à competição, desta vez no palco independente do Sundance.
 
El Cerrajero, seu novo trabalho, foi mostrado ontem no Egyptian – o cinema mais emblemático de Park City –  na  mostra competitiva  internacional dramática da 30ª edição do festival.
 
O filme divide a representação sul-americana na Mostra – composta por 12 filmes – com o chileno To Kill a Man, de Alejandro Fernandez Almendras.   
 
A história de El Cerrajero  segue Sebastian, 33 anos –  interpretado por Esteban Lamothe – dono de uma Serralheria 24 horas, para serviços de urgência.  Ele se relaciona com mulheres diferentes e não acredita na tradicional família nuclear.  Acha que ter filhos é um ato egoísta e segue um estilo de vida que lhe permite manter as coisas sob seu controle.
 
Num dia em que está acontecendo  um estranho fenômeno em Buenos Aires com uma fumaça persistente, descobre que Mônica (Erica Rivas), uma das mulheres com quem se relacionou, está grávida e, entre outros suspeitos, ele pode ser o pai da criança.  Sebastian tenta convencê-la a abortar, mas ela o isenta de responsabilidades e decide deixar o tempo seguir seu curso.
 
Quando Sebastian resolve esquecer o problema e retomar sua rotina, coisas estranhas começam a acontecer com o comportamento de seus clientes. Aos poucos, ele  vai perdendo o controle da situação e  isso complica sua vida e seu  trabalho.
 
Smirnoff soube da seleção por uma carta recebida dos programadores do festival.
 
“Ela era tão calorosa que um amigo me disse que, quando estiver me sentindo deprimida, basta reler a carta e logo passará”, brinca a diretora, que menos de duas horas depois de ter sido selecionada para o festival indie, recebeu  três e-mails de distribuidores americanos interessados no seu filme.
 
“Enviaram a mensagem inicialmente  para um e-mail antigo e depois ainda precisaram me rastrear. E o texto era em espanhol, diz  ela, surpreendida com o poder de difusão e promoção por ter seu segundo filme no exclusivo grupo do influente e reconhecido festival independente.
 
Muito feliz por participar do evento, que ela considera uma vitrine privilegiada, Smirnoff só tem elogios para os organizadores.
 
“Talvez até haja outros mais glamorosos, mas a seleção do Sundance parece feita por cinéfilos.  Elegem os filmes que gostam independentemente de quem os dirige ou protagonizam”, ressalta revelando que é muito complicado filmar na Argentina atualmente.
 
“O cinema de autor perdeu espaço nas salas. Muita gente prefere ver esse tipo de filmes em suas casas e, nesse estado de coisas, participar do Sundance é quase terapêutico”, analisa Smirnoff, que classifica seu filme como uma comédia dramática. 
 
“Sebastian é um serralheiro que não crê nas relações estáveis, até o dia que Mônica a mulher com quem sai ocasionalmente, lhe conta que está grávida, provavelmente dele. A partir dessa situação começa a ter estranhas visões sobre seus clientes”, detalha Smirnoff  lembrando que outros conterrâneos seus também estão em Park City.
 
“Gastón Duprat e Mariano Cohn estão no Sundance com Living Stars, que participa da seção não competitiva New Frontier”, completa.
 

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MR. LEOS CARAX É SUCESSO NO SUNDANCE
     
 

PUBLICADA EM 23.01.14

Carlos Augusto Brandão

Filme sobre controverso diretor francês concorre na Documentário Mundial

Mr. Leos CaraX, de Tessa Luouse-Salomé, foi muito aplaudido numa concorrida sessão de gala na 30ª edição do Festival de Sundance.
 
O filme, sobre o controverso diretor francês, é dos destaques da Mostra Documentário Mundial do evento independente.
 
Entre outras coisas, Carax tem sido chamado de incontrolável, misterioso e brilhante,  palavras que o descrevem ao mesmo tempo de forma tanto negativa quanto elogiosa.
 
Amado e odiado por muitos, numa coisa todos concordam:  Carax tem seguidores fiéis desde seu sucesso quando era um cineasta jovem e poético até adquirir a reputação de um gênio meio louco, mas que faz trabalhos brilhantes  como Holy Motors, um dos filmes mais admirados dos últimos 10 anos, um exercício surrealista que trata de arte, vida, morte, solidão, melancolia, identidade, metamorfose e poderia se encaixar em muitos outros temas.
 
Mas, além desse, outros filmes dele se tornaram cultuados  como Os amantes de Pont Neuf (1991), Sangue Ruim (1986) e Pola X (1999). 
 
Para  falar sobre sua vida, a  diretora Luouse-Salomé combinou entrevistas intelectualizadas com críticos de cinema e membros do elenco e da equipe de Carax, bem como momentos com ele próprio, pintando  um quadro comovente do pensativo Mr. X  e sua própria poesia visual.
 
Sem deixar de incluir uma interessante visão do ator principal do diretor, seu parceiro de 30 anos e seu duble virtual Denis Levant  – o perfeito alter ego para Carax. 
 
O filme evidencia que Carax é adorado ou odiado e, pelo visto, será assim sempre. Aos 52 anos mantém seguidores fiéis, ao mesmo tempo ardorosos e preocupados com o inusitado do seu próximo filme, onde tudo pode acontecer.
 
Ele, no entanto, costuma dizer que não se preocupa com os espectadores  quando faz seus filmes.
 
 “Não me importo em ser ouvido ou entendido. Se houver alguém que goste de mim fico contente, mas não faço filmes públicos, faço filmes privados”, afirma.
 

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IRMÃOS ZELLNER SÃO APLAUDIDOS EM SUNDANCE
     
 

PUBLICADA EM 22.01.14

Myrna Silveira Brandão

Diretores voltam ao festival na competitiva americana de dramas

Os irmãos diretores David e Nathan Zellner gostam de temas com pessoas excêntricas e solitárias, como já mostraram em vários filmes, entre eles – Goliath, que fez muito sucesso na edição do Festival de Sundance de 2008.
 
Eles estão de volta agora nesta 30ª edição do evento, com Kumiko, the Treasure Hunter, destaque ontem da competitiva dramática americana.
 
O filme – cuja sessão de Gala aconteceu no Eccles, maior cinema de Park City - foi recebido com muitos aplausos.
 
A história segue Kumiko, uma japonesa solitária que  vive num apartamento apertado em Tóquio com Bunzo, seu coelho de estimação.
 
No seu tedioso emprego, ela é uma auxiliar de escritório, que passa o dia fazendo tarefas metódicas como preparar chá para seu chefe e levar roupas na lavanderia.
 
Nos momentos de lazer em casa,  assiste obsessivamente a um conhecido filme americano num DVD  desgastado.
 
Kumiko revê as cenas ficcionais várias vezes, tentando  mapear o local onde o produto de um roubo foi colocado numa valise e enterrado.
 
Convencida que seu destino depende de encontrar esse “dinheiro” – e acreditando após sua extensa pesquisa, que sabe onde poderá estar  – Kumiko vai para os Estados Unidos no duro inverno de Minnesota para procurá-lo.
 
O filme é inspirado numa lenda em torno de uma japonesa que fez uma viagem semelhante na busca de um tesouro escondido.
 
Os irmãos diretores realizaram  seu mais ambicioso projeto até agora e Rinko Kikuchi tem um excelente desempenho como a introspectiva e solitária Kumiko, cujo desconforto crescente com o mundo atual a leva cada vez mais a se isolar.  
 
Filmado com uma precisão impressionante, Kumiko, the Treasure Hunter cresce em transcendência na medida em que revela a beleza da busca da personagem por outra  realidade, mesmo que essa  realidade seja  apenas sua.
 

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ANNE HATHAWAY RECEBE APLAUSOS ENTUSIASMADOS EM SUNDANCE
     
 

PUBLICADA EM 22.01.14

Carlos Augusto Brandão

Dirigido por Kate Barker-Froyland, filme concorre na competitiva dramática americana

O destaque ontem da mostra competitiva americana da 30ª edição do  Festival de Sundance foi Song One, dirigido por Kate Barker-Froyland.  Mostrado numa sessão lotada no Eccles – maior cinema de Park City – foi muito aplaudido ao final da projeção.
 
Anne Hathaway, uma das principais atrações da noite, interpreta Franny, que já há algum tempo, está em Marrocos pesquisando tribos beduínas para seu Doutorado em Antropologia. A última vez que ela falou com seu irmão Henry, eles brigaram fortemente por causa da decisão dele de desistir da universidade e virar músico.
 
Quando um terrível acidente coloca Henry em coma, Franny corre para casa em Nova York.  Desesperadamente em busca de dicas para sua recuperação, ela penetra no cenário musical de Brooklyn onde ele morava, comparecendo a um concerto do cantor / compositor James Forester (Johnny Flynn), que Henry considerava uma espécie de herói.
 
Em um dia em que  James inesperadamente visita Henry em seu quarto de hospital, uma centelha surge entre Franny e esse estranho reticente. A partir daí, nas vibrantes casas de café e clubes que eles passam a frequentar, amor e dor vão se misturar. 
 
Franny descobre um novo apreço por sua família e a possibilidade de realmente se conectar com pessoas, ao invés de levar uma vida somente como observadora, como fazia até então.
 
A química silenciosa entre Hathaway e Flynn é perfeitamente percebida, na medida em que eles vivem momentos difíceis e procuram outras formas de transcendência. Também estão muito bem no elenco Mary Steenburgen e  Ben Rosenfield.
Em Song One, trovadores do metrô, rascunhos de canções no gramofone, ensaios de guitarra durante a noite e serenatas carinhosas no hospital criam uma paisagem musical orgânica, que movimenta o caminho dos personagens.
 

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NOVO FILME DE MCDONAGH ESTREIA NO SUNDANCE
     
 

PUBLICADA EM 20.01.14

Carlos Augusto Brandão

Diretor retorna ao Festival com filme sobre a fé

John Michael McDonagh teve uma ótima receptividade quando lançou O Guarda no Festival de Sundance em 2011.
 
Ele agora está de volta ao festival com Calvary, uma comédia dramática sobre um pastor atormentado por uma comunidade que o despreza. Ao mesmo tempo,  o filme oferece uma reflexão filosófica sobre a fé, inspirada na história bíblica dos ladrões do Calvário.
 
O filme, selecionado para a Mostra Premiere, é uma produção da Irlanda / UK,  que segue o bom pastor Father James, em busca da integridade espiritual.
 
A história tem início quando um homem diz a James, no confessionário, que irá matá-lo e a razão é porque ele não fez nada de errado.
 
O pastor continua seu trabalho  doutrinando as almas perdidas e visitando suspeitos. Sua preparação para a morte, no entanto, vai ficar mais complicada pela chegada de sua filha à cidade.
 
Brendan Gleeson tem um brilhante desempenho vivendo o fascinante personagem, expressando sua luta para se reconciliar com a vontade de Deus e a possibilidade do perdão.
 
Além dele, o ótimo elenco conta com  Chris O’Dowd, Kelly Reilly, Aidan Gillen, Dylan Moran e Marie-Josée Croze.
 
Equivocada moralmente, a população da cidade  reflete uma sociedade sem alma e sem fé. Para James, que “carrega” o peso do mundo, seria fácil desistir na medida em que as forças do mal se intensificam, mas não é o que acontece.
 
Além de debater o mistério da fé, o filme expressa as preocupações contemporâneas do catolicismo (desde o abuso sexual até a influência maléfica).
 
McDonagh teve uma juventude tumultuada. Uma vez foi  preso por matar acidentalmente um cisne. Após sua liberdade, trabalhou numa loja de doces, o que certamente deve ter contribuído para que ele tivesse um grande aumento de peso. Logo após, realizou O Guarda, seu primeiro longa-metragem, que também teve première no festival independente.
 

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SUNDANCE EXIBE FILME DE AMOR E ZUMBI
     
 

PUBLICADA EM 20.01.14

Myrna Silveira Brandão

Life After Beth concorre na competitiva americana de drama

 
Trevor Groth, diretor de programação do Sundance, considera Life after Beth, estreia na direção do roteirista Jeff Baena, um dos filmes mais inovadores que já passou pelo festival.
 
“Ele  tem um enfoque peculiar quanto ao uso de algumas características dos filmes de zumbis, colocadas com competência numa história indie de amor jovem”, afirma Groth.
 
De fato, o filme de Baena – lançado ontem na mostra competitiva dramática  americana do festival –  faz uma abordagem bem diferente numa história que mistura magias, mortos reanimados e amor.
 
Audrey Plaza (namorada na vida real de Baena) interpreta uma mulher que, após sua morte prematura, retorna à vida e ao seu namorado (Dane DeHaan), criando uma série de enigmas que envolvem o futuro do casal.
 
Um deles é que a recém-chegada Beth não é bem a pessoa que ele lembrava e logo o mundo de Zach dá uma volta para pior.
 
O diretor junta diferentes partes da história, criando um novo conjunto que tem como pano de fundo um pouco da história que Dr. Frankesntein fez com seu monstro.
 
Plaza consegue um bom desempenho no papel da personagem título,  enquanto DeHaan, incorpora perfeitamente o sofrimento de um homem com o coração partido pela perda da mulher amada. Também estão no elenco, John C. Reilly e Molly Shannon.
 
Com uma trilha sonora adequada ao tema e mesclando elementos de uma love story e uma história de zumbi, o filme é ao mesmo tempo engraçado e comovente.
 

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FILME SOBRE O BUTÃO EMOCIONA SUNDANCE
     
 

PUBLICADA EM 20.01.14

Carlos Augusto Brandão

Happiness concorre na Mostra Documentário Mundial

 
Happiness, de Thomas Balmès, foi o destaque ontem  da mostra competitiva Documentário Mundial do Festival de Sundance, onde o filme foi muito aplaudido  na sessão de lançamento. 
 
A história tocante é ambientada no ano de 1999, quando o  Rei Jigme Wangchuck aprovou o uso de televisão e Internet em todo o Butão, assegurando ao povo que o  rápido desenvolvimento era sinônimo da  “Felicidade Nacional Bruta” do seu país, um termo que ele mesmo criou.
 
O filme começa no fim do processo quando Laya, o último vilarejo remanescente no Reino do Himalaia, se enche de estradas, eletricidade e televisão a cabo.
 
Durante uma viagem de três dias dos arredores de Laya até a movimentada capital de Thimphu, os espectadores acompanham a mudança que começa a ocorrer, através dos olhos de um menino de oito anos de idade e sua impaciência em adquirir um aparelho de televisão.
 
É nesse local que o jovem descobrirá, pela primeira vez, carros, banheiros, luzes coloridas de clubes e outros elementos da vida moderna.
 
Ao mostrar a sedução que a tecnologia pode causar nas pessoas – bem como o seu rápido estabelecimento alterando rapidamente um antigo estilo de vida  –  o diretor, através de um olhar observador,  ressalta como podem ser também complicados e amargos os efeitos do progresso.
 
Happiness, de 80 minutos e a cores,  é uma produção da França / Finlândia e foi exibido com subtítulos em inglês.
 

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COLD JULY É DESTAQUE NO SUNDANCE
     
 

20.01.14

Myrna Silveira Brandão

Filme é um dos destaques da mostra dramática americana, a principal do Festival

Cold in July, novo filme de  Jim Mickle foi a atração ontem das mostras competitivas americanas do Festival de Sundance (16 a 26.01).
 
O filme segue um homem numa pequena cidade texana que, depois de matar um invasor, entra num obscuro submundo de violência e corrupção.  
 
A história ambientada em 1980 no leste do Texas se desenvolve em torno de dois pais que estavam em luta por vingança e precisam se aliar para descobrir uma verdade amarga.
 
Com um bom elenco que inclui Michael C. Hall, Don Johnson, Vinessa Shaw, Nick Damici, Wyatt Russell e o veterano dramaturgo Sam Shepard (70 anos), o filme é roteirizado por Mickle e Nick Damici.  
 
Cold in July segue o viés dos trabalhos anteriores de Mickle, no fato de ser ao mesmo tempo um violento drama e um thriller com pinceladas de horror.
 
Além disso, como é característica do diretor, investe na textura da imagem, explorada com habilidade pela luz embaçante que predomina nos ambientes.
 
Essa, por sinal,  é uma das especialidades de Mickle, cujos primeiros trabalhos foram como câmera e desenhista de “storyboard”.
 
Mickle está de volta ao Sundance, onde em 2013 apresentou  Somos o que Somos, remake do filme de terror mexicano de Jorge Michel, transposta dos subúrbios mexicanos para uma região rural dos Estados Unidos.
 

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KRISTEN STEWART PROTAGONIZA FILME NO SUNDANCE
     
 

PUBLICADA EM 18.01.14

Myrna Silveira Brandão

Camp X-Ray é um dos destaques da mostra dramática americana

O destaque ontem na 30ª edição  Festival de Sundance foi  Camp X-Ray, de Peter Sattler, que concorre na mostra dramática americana.
 
O filme é a história de  Cole (Kristen Stewart), uma jovem que entra na carreira militar, na busca de ser parte de alguma coisa maior do que seria na pequena cidade onde nasceu.
 
Mas ela acaba como guarda na prisão de Guantánamo, onde precisa desempenhar uma missão difícil. Cercada por companheiros agressivos, ela começa uma improvável amizade com um dos detidos.
 
O filme mostra a luta de duas pessoas em lado opostos da guerra, procurando encontrar um caminho possível na Baia de Guantánamo.  Nesse processo, formam um elo incomum e suas vidas nunca mais serão as mesmas.
 
Stewart  está de volta ao Sundance, onde em 2010 fez muito sucesso com The Runaways – Garotas do Rock.
 
Em Camp X-Ray, a atriz também tem uma excelente atuação, mostrando que não é apenas uma estrela glamorosa e que tem talento para viver papéis sérios e dramáticos como neste filme que exige uma interpretação cheia de nuances e internalizações.
 
Payman Maadi, por sua vez, não fica atrás e tem um desempenho poderoso vivendo um homem preso num limbo, buscando a racionalidade.
 
Tendo os aspectos políticos apenas como pano de fundo, o diretor mergulha na humanidade daquela prisão infame, apresentando uma  perspectiva nova para o discurso da guerra ao terrorismo e alcançando  uma das grandes virtudes do filme que é a empatia com a audiência. 
 
Sattler está estreando em longa-metragem. Até então, ele concentrava sua carreira nos departamentos de arte responsáveis por desenhos gráficos dos filmes e havia dirigido apenas um curta-metragem: Newton em 2001.
 
O filme tem mais cinco sessões programadas, uma delas em Salt Lake City, capital do estado de Utah.   
 

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DIRETOR ESTREANTE É ATRAÇÃO NO SUNDANCE
     
 

PUBLICADA EM 18.01.14

Carlos Augusto Brandão

God's Pocket concorre na competitiva americana de drama

 
O aclamado ator John Slattery de filmes e séries de TV (Mad Men – Inventando Verdades) teve uma atuação auspiciosa atrás das câmeras com seu novo trabalho.  
 
God’s Pocket,  sua estreia na direção para cinema, foi muito aplaudido ontem no Festival de Sundance, onde foi exibido  no majestoso Eccles – maior cinema de Park City – em première mundial na competitiva dramática americana.
 
Slattery roteiriza o filme junto  com Alex Metcalf, numa história que gira em torno de Mickey Scarpato que, após a morte de Leon, seu enteado num suposto acidente, tenta encobrir as más notícias em torno do episódio.
 
Mas quando a mãe do menino exige a verdade, ele se encontra preso entre um corpo que não pode enterrar, a esposa que  não pode agradar e uma dívida que não pode pagar.
 
O filme mostra que Slattery  tem um olho afiado para mostrar o absurdo, a crueldade, o desespero e o trágico otimismo das pessoas que retrata.
 
Como a vida, suas cenas juntam humor e tristeza, mas é a inteligência e o estilo confiante de Slattery que torna o retrato exposto no filme tão autêntico.  Mostrando um elenco de topo e fotografia impecável, God’s Pocket fervilha com o talento e a presença inspirada do diretor.
 
É importante ressaltar que Mickey é vivido pelo excelente e oscarizado Philip Seymour Hoffman, o que representa uma enorme ajuda para o sucesso do filme. Hoffman também está nas telas do Sundance em  A Most Wanted Man, de Anton Corbijn, que integra a paralela Première.
 
O  elenco de God’s Pocket  conta ainda com Richard Jenkins, Christina Hendricks e John Turturro.
 

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THE GREEN PRINCE RESSALTA O PODER DA AMIZADE
     
 

PUBLICADO EM 18.01.14

Carlos Augusto Brandão

Sundance dá início à Mostra Documentário Mundial

The Green Prince, de Nadav Schirman  (Alemanha / Israel / UK), deu início ontem à Mostra Documentário Mundial, numa lotada sessão de gala na 30ª edição do Festival de Sundance. 
 
O filme traz uma história tão extraordinária que somos tentados a pensar que se trata de uma ficção, se é que alguém conseguiria inventá-la.
 
Mosab Hassan Yousef, um palestino de Ramallah, cresce odiando e pronto para lutar contra Israel.  Com a idade de 17 anos, é detido por contrabandear armas, interrogado por Shin Bet, do serviço de segurança de Israel e mandado para a prisão.
 
Chocado com as táticas impiedosas do Hamas na prisão e ainda com a escalada da campanha da organização em favor de homens bombas suicidas, Mosab concorda em se transformar em espião para Israel. O que, para ele, não traz nenhuma vergonha.
 
Baseado nas memórias Son of Hamas, escritas por  Yousef, The Green Prince é sobre a vida de dois homens, cuja história insiste que eles devam ser adversários. Assim, parece mesmo absurdo que eles tenham chegado ao ponto de ter confiança e amizade um pelo outro.   
 
Costurando uma rede de intrigas, terror e traição, Schirman constrói uma tensão crescente através de todo o filme numa viagem surpreendentemente emocional.
 
Em última análise, The Green Prince é menos um filme  sobre luta política do que uma tomada de consciência pessoal sobre responsabilidade e dever moral.
 

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SUNDANCE INICIA MOSTRA INTERNACIONAL
     
 

Publicado em 18.01.14

Myrna Silveira Brandão

Lilting, de Hong Khaou, abriu a mostra competitiva Cinema Mundial

O filme, que tem première mundial no festival,  é uma produção do Reino Unido falada em inglês e mandarim
 
A história segue Junn, uma chinesa-cambojana, arrasada pela morte súbita de seu filho Kai e  que, passa a sofrer mais ainda quando surge Richard, um estranho que não fala sua língua.
 
Sentindo um forte senso de responsabilidade para com o único membro da família de Kai, Richard que namorava o jovem, procura Junn que está passando um tempo num asilo. Apesar de Junn falar pouco inglês, sua aversão por Richard é clara, e ela tem uma forte resistência para encontrá-lo.
 
Lilting é um filme tocante e intimista sobre a procura dos personagens por  coisas que os una.
 
O longa-metragem  de estreia do roteirista e diretor Khaou oscila entre o real e o imaginário para expressar a dor silenciosa da perda que ambos os personagens experimentam.
 
Sensível e discreto, Lilting traz delicados desempenhos de Ben Whishaw e da lendária atriz chinesa Pei-Pei Cheng, que sustentam um sentido palpável de desconforto quando um está na presença do outro na tela.
 
O elenco conta ainda com Andrew Leung, Peter Bowles, Naomi Christie e Morven Christie.
 
Lilting é uma meditação sensível sobre o caminho percorrido até o estabelecimento de uma conexão entre duas almas humanas e como, o que as separa, pode também juntá-las.
 

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MOSTRAS COMPETITIVAS DÃO PARTIDA AO SUNDANCE
     
 

Publicada em 17.01.14

Myrna Silveira Brandão

Redford reafirma importância do festival para os diretores independentes

No majestoso Eccles de Park City, Whiplash, de Damien Chazelle abriu ontem à noite, a mostra competitiva de dramas, dando início à programação da 30ª edição do Sundance, que vai até o dia 26. 
 
O filme é a história de Andrew, um baterista promissor de 19 anos, que estuda no Conservatório de Música de Manhattan, mas  tem pouco interesse em ser apenas um músico.
 
Na verdade, pelo fato de seu pai ter falhado como escritor, ele tem medo que a mediocridade possa ser genética. Alimentando o sonho de grandeza e determinado a não seguir os passos do seu pai, ele treina intensamente todos os dias. 
 
A pressão pelo sucesso atinge seu nível extremo, quando ele é escolhido para entrar na banda da escola liderada pelo infame Terence Fletcher, um instrutor de música meio selvagem que não mede esforços para que o estudante atinja o limite máximo do seu potencial.
 
Sob a forte direção de Fletcher, Andrew começa a perseguir a perfeição a qualquer custo, até mesmo sua condição humana.
 
Chazelle teve seu curta-metragem Whiplash premiado no Sundance do ano passado, que dá origem agora ao seu longa homônimo brilhantemente realizado e enriquecido pela força dos desempenhos de Miles Teller como Andrew e JK Simmons como Terence Fletcher,
 
Na apresentação do filme, Chazelle manifestou sua satisfação com a estreia do filme em Sundance.
 
“Eu acho que é bom se seu trabalho é visto internacionalmente”, complementou.
 
A programação da noite teve continuidade com Dinosaur 13, de Todd Douglas Miller, da mostra competitiva americana de documentários.
 
A história de Dinosaur 13 começa em 12 de agosto de 1990, nas paisagens de Dakota do Sul quando o paleontólogo Peter Larson –  e sua equipe do Instituto Black Hills –  desenterrou o maior e mais completo Tyrannosaurus Rex jamais encontrado, que eles o apelidaram de Sue.  Foi um achado digno de uma vida inteira. 
 
Dois anos depois, quando o FBI e a Guarda Nacional apareceram, começou uma verdadeira batalha pela posse de Sue. O governo americano, grandes museus do mundo, tribos nativas americanas e paleontólogos, que competiam entre si, se transformaram em algozes de Larson na medida em que ele e seu time lutavam para manter o seu dinossauro e contra as táticas intimatórias que ameaçaram suas próprias liberdades.
 
Dinosaur 13 conta uma  saga sem precedentes na história americana, bem como detalhes da batalha furiosa para possuir o tesouro de 65 milhões de anos.
 
Com habilidade consumada, Miller escavou camada por camada do episódio, expondo a emoção humana num conto dramático que é tão complexo quanto fascinante.
 
 
Redford fala sobre sua não indicação ao Oscar e reitera a essência do festival
 
 
Uma entrevista coletiva com Robert Redford, criador do Sundance, precedeu as sessões com os filmes, no Egyptian Theater.
 
Redford estava cotado aos prêmios da Academia por seu papel em All is Lost, no qual interpreta um náufrago lutando para sobreviver.
 
O ator, diretor e produtor de 77 anos disse que teria sido maravilhoso ter sido indicado, mas que não estava preocupado com isso.
 
“O que aconteceu é que não teve uma campanha para chegar aos grandes mercados e aos votantes do Oscar, mas me encantou a experiência de ter feito o filme”, afirmou Redford, lembrando que o diretor  de All is Lost, J.C. Chandor fez sua estreia no Sundance.
 
“Além disso, o  filme me  deu a oportunidade de voltar às minhas raízes”, complementou.   
 
A seguir disse que o maior êxito do Festival de Sundance é ter dado um espaço para que o cinema independente seja visto e celebrado.
 
“O Festival ampliou sua oferta em suas três décadas de história, tanto em quantidade como nos gêneros e tipos dos filmes exibidos”, ressaltou reiterando que o evento segue sua proposta original de identificar e apoiar novas vozes.  
 

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PASSAPORTE PARA A FAMA
     
 

Publicada em 16.01.14

Carlos Augusto Brandão

Sundance abre hoje comemorando 30 anos de cinema independente

 
O drama Whiplash, de Damien Chazelle e o documentário  Dinosaur 13, de Todd Miller, abrem hoje as mostras competitivas americanas da 30ª edição do Sundance (16 a 26.02).
  
Por sua vez, Lilting, de Hong Khaou (UK) e The Green Prince, de Nadav Schirman (Alemanha / Israel) abrirão as competitivas  internacionais de ficção e documentário.
 
Rudderless,  dirigido pelo ator William H. Macy será o título de encerramento.   Macy protagoniza o filme vivendo um pai de luto que encontra uma caixa de música original de seu filho morto e forma uma banda de rock.  
 
O Sundance  acontece em Park City, uma sofisticada estação de esqui nas Montanhas Rochosas, onde durante 11 dias serão mostrados cerca de  200 títulos – entre longas e curtas –  divididos em mostras competitivas, premières, homenagens e retrospectivas.
 
Até o dia 26 uma multidão lotará o vilarejo com cerca de três mil habitantes em sua época normal.  A uma temperatura quase sempre abaixo de zero, cinéfilos e jornalistas disputam espaços nos restaurantes, hotéis e estacionamentos com executivos de estúdios e distribuidores para descobrir aquele novo diretor genial ou o filme de baixo orçamento que da noite para o dia poderá gerar milhões.
 
A cada ano, a pequena cidade parece ter menos condições de receber tanta gente, mas segundo declarações repetidas do seu criador, o ator e diretor Robert Redford, não há possibilidade de transferir o evento para outro local. “É na neve e no frio aproximando as pessoas que está a graça do festival acontecer em Park City”, costuma reiterar.
 
Competição traz nomes famosos no elenco
 
 
Os filmes produzidos sob a égide do cinema independente são realizados fora do sistema de estúdios, mas cultuados atores dão uma ajuda para os novatos diretores.
 
Assim, na competitiva americana de dramas Philip Seymour Hoffman, Richard Jenkins e John Turturro protagonizam God’s Pocket, de John Slattery;  Sam Shepard e Michael C. Hall estrelam o suspense Cold in July, de Jim Mickle; Anne Hathaway interpreta a irmã de um músico em Song One, de Kate Barker-Froyland;  e Kristen Stewart vive uma policial  numa prisão de Guantánamo e uma improvável amizade com um dos detidos em Camp X-Ray, de Peter Sattler
 
Outra atração é a volta dos irmãos David e Nathan Zellner ao Sundance com Kumiko, the Treasure Hunter.  Baseado numa história real, o longa  segue uma solitária  mulher japonesa que está convencida que um tesouro escondido num filme de ficção, é de fato real. Ela abandona sua vida estruturada em Tóquio e vem para a fria Minnesota para procurar a mítica fortuna.
 
Na Competitiva Internacional de drama – que nesta edição não incluiu títulos brasileiros – a América do Sul será representada pelo Chile com  To Kill a man, de Alejandro Fernandez Almendras; e pela Argentina com El Cerrajero, de Natalia Smirnoff, sobre um serralheiro que começa a ter visões estranhas sobre seus clientes.
 
A mostra é bastante diversificada, contemplando filmes da Austrália, Noruega, Etiópia, Sérvia, Índia, Bulgária, Alemanha e Itália. 
 
Mr. Leos Carax (França), de Tessa Louise-Salomé, sobre o enigmático cineasta francês é uma das maiores expectativas na categoria de documentários.  
 
 
Paralelas  
 
A Première – principal mostra fora de concurso do Sundance e criada para expor a diversidade do cinema independente contemporâneo – também traz muitos nomes famosos em sua programação.
 
Entre os 16 selecionados se destacam: A Most Wanted Man (Alemanha), de Anton Corbijn, baseado no best-seller homônimo de John le Carré e que traz no elenco Philip Seymour Hoffman, Rachel McAdams e Willem Dafoe;  Frank (Irlanda), de Lenny Abrahanson, estrelado por Michael Fassbender e Maggie Gyllenhaal;  Love is Strange (EUA)  de Ira Sachs, com  Alfred Molina e Marisa Tomei; e The Trip to Italy (UK), comédia dirigida por  Michael Winterbottom,  com Steve Coogan e Rob Brydon. 
 
Na Première Documentário um dos mais esperados é Life Itself, de Steve James, sobre o renomado crítico de cinema Roger Ebert, que morreu em abril deste ano.
 
 
Uma trajetória de 30 anos
 
Ao longo desse tempo, diretores estreantes, com seus dramas e documentários, têm buscado seu lugar ao sol no meio desta neve toda.
 
O fato é que o Sundance abre portas. Criado em 1981 por  Redford, o Sundance é hoje o mais importante evento do cinema independente americano.  Desde 1989 quando Sexo, Mentiras e Videoteipe levou o prêmio de audiência e projetou seu diretor Steven Soderbergh, os grandes produtores de Hollywood passaram a ver o festival não só como um evento que exibe filmes de grande originalidade, mas também como ponto alto da temporada de caça a diretores talentosos cujos filmes podem render, da noite para o dia, recordes de bilheteria.
 
Isso aconteceu com trabalhos de Quentin Tarantino, Hal Hartley, Roberto Rodriguez, Solondz e dos Irmãos Coen – hoje ícones do cinema independente –  e com filmes como o fenômeno A Bruxa de Blair.  Exibida em 1999,  a produção de US$ 35 mil, graças a uma incrível jogada de marketing pela Internet, é um dos filmes mais rentáveis de todos os tempos.
 
Sem esquecer o nosso Central do Brasil, de Walter Salles, que ao ganhar o prêmio de roteiro em 1996, começou em Sundance sua escalada de sucessos:
 
“O Sundance deu uma grande ajuda para viabilizar Central do Brasil.  Sem dúvida nenhuma, o festival é o principal ponto de irradiação do cinema independente mundial”, reconheceu Salles após a première de Central, que teve sua estreia no Sundance/98.
 
A participação brasileira
 
Na verdade, os brasileiros firmaram no festival alguns alicerces. Antes de Central, passaram pelo Sundance, entre outros, o mesmo Walter Salles com Terra Estrangeira, Lucia Murat com Doces Poderes, Djalma Limongi Batista, com Bocage – o Triunfo do Amor, Beto Brant com Ação entre Amigos e José Araújo, que com o poético Sertão das Memórias, levou o prêmio latino americano em 97.
 
Sem contar participações posteriores de Andrucha Waddington (Casa de Areia), José Padilha (Tropa de Elite e Segredos da Tribo) e Karin Aynous (Madame Satã), entre outros.
 

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Retrospectiva da Berlinale 2014 focará Estilos de Iluminação
     
 

Publicada em 07.11.13

Myrna Silveira Brandão

O tema central da retrospectiva da 64ª edição do Festival de Berlim será a iluminação no cinema. Intitulada Estética da Sombra, a Mostra dará às audiências a oportunidade de descobrir ou rever estilos de iluminação, em décadas e gêneros específicos, da hi

O tema central da retrospectiva da 64ª edição do Festival de Berlim será a iluminação no cinema. Intitulada Estética da Sombra, a Mostra dará às audiências a oportunidade de descobrir ou rever estilos de iluminação, em décadas e gêneros específicos, da história do cinema no Japão, Estados Unidos e Europa.
 
A ideia de realizar a Retrospectiva na Berlinale teve origem  no livro The Aesthetics of Shadow, Lighting and Japanese Cinema (2013), de Daisuke Miyao.
 
Rainer Rother, organizador da mostra e diretor artístico da Cinemateca Alemã, destacou a importância desse reconhecimento a Mioyao. 
 
“As fascinantes inspirações de Daisuke Mioyao, na arte de iluminação e na história do cinema japonês, foram pouco estudadas e nos impressionam tanto que estamos fazendo a curadoria, no nosso programa de filmes, em estreita cooperação com ele”, disse Rother, lembrando que a Berlinale também tinha uma dívida com as diversas sugestões do escritor para premières alemãs de filmes japoneses.
 
“Um deles, que mostraremos agora, é o  “musical samurai” Singing Lovebirds, de Masahiro Makino, Japão (1939), um filme que atingiu um status de culto no Japão”, complementa.
 
Nessa época, muitas pessoas ficavam fascinadas com a estética do diretor F. W. Murnau em filmes como A Última Gargalhada e Nosferatu e admiravam igualmente o mágico mundo de luz e sombras de Josef von Sternberg  em Docas de Nova York (1928) e O Expresso de Shanghai (1932). 
 
Tudo isso levou a que o fotógrafo japonês Henry Kotani, que havia vivido nos Estados Unidos, fosse convidado pelo Estúdio Shochiku para modernizar a cinematografia e os efeitos de luz e refletores dos seus filmes.
 
Um exemplo disso é o filme The Revenge of Yukinojo, de Teinosuke Kinugasa, que mostra  espadas brilhando no escuro da noite.  O protagonista Kazuo Hasegawa se transformou numa grande estrela do cinema japonês, também devido à sofisticada iluminação especialmente criada para o seu rosto.
 
A mútua influência de outros gêneros pode também ser observada. Diversos filmes de guerra japoneses e americanos mostravam, em iluminação de luzes e sombras, os atos heroicos praticados por seus soldados e tropas.
 
Uma mudança no sentido do realismo pode ser vista no uso de locações em eventos reais de guerra.  Essa tendência é também refletida em clássicos  como As Vinhas da Ira, de John Ford (1940), Cidadão Kane, de Orson Welles (1941) e Cidade Nua, de Jules Dassin (1948), filmes que exploraram os limites entre realidade e a ficção.
 
A Mostra será constituída de  40 filmes mudos e sonoros, focalizando estilos de iluminação para diversos gêneros.
 
Entre os destaques,  estão também alguns  títulos recentemente restaurados como Under the Lantern, de Gerhard Lamprecht, (Alemanha, 1928);  A Marca do Zorro, de Fred Niblo (1920) e O Máscara de Ferro, de Allan Dwan (1929), ambos americanos. 
 
Os títulos mudos serão acompanhados de trilhas musicais criadas especialmente para eles e executadas por grupos de diversas origens.
 
Ao fazer o anúncio da Mostra, Dieter Kosslick, diretor da Berlinale, também expressou a importância dessa Retrospectiva.
 
“Nós admiramos filmes como, por exemplo,  Rashomon, de Akira Kurosawa, mas na maior parte das vezes, não sabemos os nomes dos operadores de câmera e os técnicos de iluminação que, junto com o diretor, criaram esses maravilhosos mundos de luz e sombra para nós”, declarou Kosslick.
 

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WES ANDERSON ABRIRÁ BERLINALE
     
 

Publicada em 05.11.13

Carlos Augusto Brandão

The Grand Budapest Hotel, de Wes Anderson, será o filme de abertura da 64ª edição do Festival de Berlim (06 a 16.02.14).

The Grand Budapest Hotel, de Wes Anderson, será o filme de abertura da 64ª edição  do Festival de Berlim  (06 a 16.02.14).
 
Anderson está de volta à Berlinale, onde participou da competição oficial em 2002 com Os Excêntricos Tenenbaums e em 2005 com A Vida Marinha com Steve Zissou. 
 
O novo filme do talentoso diretor americano segue as aventuras de Gustave H,  lendário concierge de um famoso hotel europeu no período entre as guerras, e Zero Moustafa, o office boy, que se torna o seu amigo mais confiável. 
 
A história envolve ainda o roubo e a recuperação de uma pintura renascentista de valor incalculável e a batalha por uma enorme fortuna familiar, tudo isso tendo por pano de fundo as dramáticas mudanças que estavam ocorrendo no Continente.
 
The Grand Budapest Hotel é uma produção anglo-germânica e foi filmada em locações na Alemanha (especialmente em Gorlitz), em partes da Saxônia e também no histórico Estúdio Babelsberg, em Potsdam.
 
Dieter Kosslick, diretor da Berlinale, manifestou sua satisfação de ter o filme de Anderson abrindo o evento.
 
 “Nós estamos felizes por Wes Anderson abrir a 64ª Berlinale com seu novo filme, The Grand Budapest Hotel.  Com o inconfundível charme de Anderson, esta comédia promete dar partida à Berlinale, no melhor estilo possível”, declarou  Kosslick dando destaque ao elenco e ao design do filme.
 
“Além da marca inimitável de Anderson, o filme tem um elaborado design de produção e um elenco fantástico”, ressaltou.
 
De fato, o elenco estelar traz Ralph Fiennes e Tony Revolori nos papéis principais, além de F. Murray Abraham, Mathieu Amalric, Willem Dafoe, Jeff Goldblum, Harvey Keitel, Jude Law, Bill Murray, Edward Norton, Tilda Swinton e Léa Seydoux, entre outros.
 
Até o final de dezembro, o Festival deverá anunciar as mostras de retrospectivas, paralelas, homenagens e a programação completa no início do próximo ano.
 
Distribuído pela Fox Searchlight Pictures e ainda sem data de lançamento no Brasil, o filme deverá estrear na Europa e Estados Unidos entre fevereiro e março de 2014.
 

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Versão restaurada de O Gabinete do Dr. Caligari terá premiere mundial em Berlim
     
 

Publicada em 04.11.13

Myrna Silveira Brandão

A 64ª edição do Festival de Berlim – que acontecerá de 06 a 16 de 2014 – terá, na sua tradicional mostra destinada a homenagens e retrospectivas, a premiere mundial do clássico O Gabinete do Dr. Caligari, de Robert Wiene.

A 64ª edição do Festival de Berlim – que acontecerá de 06 a 16 de 2014 – terá, na sua tradicional mostra destinada a homenagens e retrospectivas, a premiere mundial do clássico O Gabinete do Dr. Caligari, de Robert Wiene.
 
O fime, que teve seu lançamento em 1920, será exibido 94 anos depois, em sua nova versão, completamente restaurada digitalmente, no escopo da Berlinale Clássicos.
 
O Gabinete do Dr. Caligari não é apenas um clássico do cinema mudo expressionista de grande significado na história do cinema, mas tem também influenciado muitos diretores de gerações que o seguiram.
 
O filme teve sua primeira exibição pública em Berlim no dia 26 de fevereiro de 1920.  Esse trabalho do cinema mundo alemão é famoso por seu extraordinário estilo que foi influenciado pelo expressionismo e pelo romantismo.  A exibição em Berlim, no dia 09.02.14 será acompanhada por concerto executado pela Berliner Philharmonie.
 
Essa apresentação está sendo organizada pelo Festival de Berlim em cooperação com A Cinemateca Alemã e o Museu Friedrich Murnau e Berliner Philharmoniker.
 
A restauração foi realizada pelo Museu Murnau em colaboração com Bundesarchi-Filmarchiv e L’Immagine Ritrovata – Film Restoration & Conservation, de Bolonha.
 

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CAPTAIN PHILLIPS TEM PREMIERE MUNDIAL NO NYFF
     
 

28.09.13

Carlos Augusto Brandão

Paul Greengrass está de volta ao Festival de Nova York, onde teve muito sucesso em 2002 com seu ótimo Domingo Sangrento. Captain Phillips, seu novo filme, teve ontem (27.09) sua première mundial no festival, com o status de abrir esta 51ª edição.

Nova York

Paul Greengrass está de volta ao Festival de Nova York, onde teve muito sucesso em 2002 com seu ótimo Domingo Sangrento.

Captain Phillips, seu novo filme, teve ontem (27.09) sua première mundial no festival, com o status de abrir esta 51ª edição do evento, que vai até o dia 13.10.

Mostrado numa sessão prévia para a imprensa, o filme do diretor britânico é um thriller de ação, ancorado num bom desempenho de Tom Hanks vivendo o personagem título. 

O filme narra a história real do Capitão Richard Phillips, sua tripulação e o navio mercante americano Maersk Alabama, que foi tomado por piratas em 2009.

Centrado  na relação entre Phillips e o chefe do grupo somaliano Muse (Barkhad Abdi), o thriller traça um complexo painel dos efeitos da globalização através da colisão inevitável de dois homens que se defrontam com forças políticas e militares fora do seu controle.

Kent Jones, diretor do festival,  deu as boas vindas ao diretor destacando que o filme é uma experiência única.

“Paul Greengrass se transformou num mestre em mergulhar na realidade de conflitos geopolíticos. Eu estou orgulhoso  que este filme de ação, um verdadeiro  thriller da vida real, coroado pelas brilhantes interpretações de Hanks e dos quatro estreantes somalianos (Barkhad Abdi, Faysal Ahmed, Barkhad Abdirahman e Mahat M. Ali) esteja abrindo esta edição”, declarou Jones, complementando que  o filme é um retrato complexo dos  inúmeros efeitos da globalização.

Com o roteiro de Billy Ray, Captain Phillips é baseado no livro A Captain’s Duty: Somali Pirates, Navy Seals, and Dangerous Days at Sea, de Richard Phillips e Stephan Talty.

Na coletiva após a projeção, Greengrass, Hanks e Abdi subiram  ao palco sob aplausos e falaram  sobre o filme e  os desafios para realizá-lo. 

Greengrass lembrou que o episódio do navio mercante Maersk Alabama é bastante conhecido nos EUA e, segundo ele,  é uma grande história.

“Desde que li o livro, pensei em trazê-lo para as telas. Nem sempre, temos tantas informações para criar um filme, mas neste caso, havia muito material, desde que o navio zarpou, o barco pirata, o ataque, o capitão Phillips no bote salva-vidas quando ele tenta escapar. É uma história dramática e fascinante”, ressaltou, afirmando que a globalização tem um papel importante na história.

“Ela é o coração do filme. Essa história dramática se dá no contexto de um mundo globalizado.  Em última análise, o que impulsiona esses dois capitães de mar juntos é a globalização”.

O diretor contou que, para maior veracidade na adaptação para as telas, passou bastante tempo com o Capitão Phillips e sua família.

“Ele é um homem bom e foi muito interessante mergulhar no seu mundo e nos perigos que ele traz”, afirmou Greengrass, complementado por Hanks. 

“Para me preparar para o papel eu precisei conhecer melhor o Capitão Phillips e estive algumas vezes com ele em Vermont, onde vive com sua mulher.  Eu achei fantástico que, após ter sofrido um drama tão aterrorizante, ele tenha conseguido voltar a trabalhar no mar”, ressaltou o ator, reiterando que conhecê-lo foi fundamental para vivê-lo nas telas.

“Eu sabia que entender a força de Phillips seria essencial para entender o tipo de homem que ele é na realidade”, afirmou o ator.

Greengrass contou que Hanks  foi sua primeira opção para viver o personagem. 

“Ele era fundamental nesse projeto e acho que está  absolutamente fantástico no filme. É um ator por inteiro, fazendo o que faz de melhor, num desempenho incrível, poderoso e brilhante, interpretando um homem comum de frente para um perigo intenso”, afirmou o diretor com muitos elogios também para Abdi, que está estreando no cinema e contou como foi trabalhar com o diretor.

“Paul nos colocou – a mim e aos demais atores somalianos – num forte regime de treinamento. A cena mais difícil foi a tomada do navio.  Ele nos disse que não deveríamos ser apenas atores, nós tínhamos que nos transformar  em piratas. O pior é que eu nem sabia nadar, mas  após algumas semanas de treinamento, nós realmente nos transformamos em bandidos do mar”, contou o ator, com seu jeito tímido e pausado.

Ao final, Greengrass disse que esse filme é diferente em sua carreira porque teve um forte impacto emocional em relação aos acontecimentos que o envolveram:

“Mas o que eu tento fazer em meus filmes é torná-los tão emocionantes quanto possível. As pessoas vão ao cinema para ter uma experiência cinematográfica inédita e eu espero ter alcançado isso, mas é algo que somente os espectadores poderão julgar”, concluiu.



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The 51 New York Film Festival
     
 



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JONZE ENCERRA O NYFF
     
 

14.10.13

Carlos Augusto Brandão

Her, de Spike Jonze, teve sua première mundial ontem em sessão de gala como o filme de encerramento da 51ª edição do Festival de Nova York.

Roteirizado por Jonze,  locado em Los Angeles e ambientado num futuro próximo, o filme é uma love story que explora os riscos da intimidade no mundo moderno.   Para contá-la, o diretor reuniu um elenco de peso que inclui Joaquin Phoenix, Scarlett Johansson, Amy Adams, Rooney Mara e Olivia Wilde.

Lembrando os elementos Ficção Científica e o tom bem humorado de Quero ser John Malkovich, o filme segue Theodore Twonbly (Phoenix), um escritor solitário que desenvolve uma conexão com o seu novo “sistema operacional avançado”. Depois de iniciá-la, Twombly encontra Samantha (Johansson), uma voz brilhante do sexo feminino que é perspicaz, sensível e engraçada.

Rose Kuo, Diretora Executiva do Filme Society of Lincoln Center, onde acontece o festival, registrou o fato de ter o filme mostrado na noite de encerramento.

 “Ao lidar com marionetes tragicômicas e um homem vivendo seu caso de amor único, o visionário diretor Spike Jonze mostrou ser um poeta desse nosso novo mundo. Estamos muito honrados de poder tê-lo conosco nesta edição”, afirma.

Jonze, por sua vez, também expressou sua satisfação com a première mundial no festival. 

“Estou muito emocionado e animado de estrear na cidade. No NYFF tivemos a primeira sessão pública nos EUA de Being John Malkovich, nossos amigos estavam aqui, não esqueço aquele momento, é muito bom retornar ao festival”, ressalta.

O diretor diz que foi preciso contornar algumas dificuldades para fazer o filme.

“Nós colocamos em prática o “futuro” que imaginamos para a trama, mas o grande desafio foi contar uma história de amor em que um dos personagens não aparece na tela. Era preciso transmitir o amor de um pelo outro, fazendo os atores sentirem o que os personagens precisavam sentir. Estou consciente que foi difícil, mas eles conseguiram com a maior competência”, elogia destacando a principal inspiração para contar essa história.

“A tecnologia se tornou uma presença enorme em nossas vidas. Nós convivemos diariamente com e através dela e, paralelamente, vivemos uma experiência emocional, queiramos ou não. Além desse aspecto ficção científica que o filme tem, há também a necessidade de se manter conectado e, principalmente, a questão do amor. Na essência, é um filme sobre o relacionamento humano, em seu sentido mais puro”, define.

Um dos pontos altos do filme é a excelente fotografia de Hoyte van Hoytema, perfeitamente adequada à trama. Jonze conta que foi a primeira vez que trabalhou com ele.

“Quando eu o conheci, uma das primeiras coisas que eu gostei é que ele tem algo feminino em termos da sensibilidade e poderia trazer isso para o seu trabalho.  Eu queria que o filme tivesse esse quê feminino e ele ajudou muito. Como é holandês, Hoyte  trouxe também um toque europeu ao filme”, conta o diretor. 

 A obra de Jonze vai além dos filmes incluindo também vídeos de música, comerciais e documentários, mas ele ainda não sabe qual será o próximo projeto.

“Não decidi ainda, talvez faça um novo documentário, mas um pouco mais adiante, por enquanto vou me dedicar ao lançamento de Her”, avisa. 

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NYFF ASSISTE AO AMOR ENTRE DUAS MULHERES
     
 

11.10.13

Carlos Augusto Brandão

Kechiche mostra seu novo filme no NYFF

Nova York

A Vida de Adèle (La Vie D’Adéle), do cineasta tunisiano radicado na França  Abdellatif Kechiche, tem impactado as plateias por onde tem passado. Assim foi em Cannes – onde ganhou a Palma de Ouro –  e também na 51ª edição do Festival de Nova York.

Kechiche está de volta ao festival, onde em 2010 apresentou A Vênus Negra, a triste história real da sul-africana Saartjie Barman, que se tornou símbolo da segregação racial.

O novo filme de Kechiche mostra, com fortes cenas de sexo entre duas meninas, as descobertas de uma garota de 15 anos que se apaixona por outra moça.

Mas o filme chama atenção também pela doçura e intensidade, pela atuação das duas atrizes, pela maneira como trata o sexo entre as duas mulheres e pela sexualidade feminina.

As protagonistas são vividas, num excelente desempenho, pelas atrizes Léa Seydoux e Adèle Exarchopoulos. 

Adèle assume o papel tradicional da mulher e Emma é o fator masculino. Nas conversas, Adèle fala de literatura e da sua paixão por trabalhar com crianças. Emma compartilha ideias sobre desenho e pintura.

O roteiro teve origem na história Blue is the warmest colour, a HQ francesa de Julie Maroh publicada em 2010, intitulada Le Bleu est une Couleur Chaude (O Azul é uma Cor Quente).

Azul, no caso,  é a cor dos cabelos de Emma, estudante de Belas Artes que Adèle conhece ainda no colégio. 

A narrativa é bastante concisa, embora longa, mas os 179m de duração do filme passam suavemente. 

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VAMPIROS SOFISTICADOS
     
 

10.10.13

Myrna Silveira Brandão

Jarmusch mostra seu novo filme no NYFF, também programado para o Festival do Rio

Nova York

Histórias de vampiros costumam ser narradas nas telas de várias formas, tamanhos e estilos, mas sempre com o viés sombrio e assustador.  Em seu novo filme, o diretor americano Jim Jarmusch procurou abordar o tema, de maneira inovadora, fugindo do clichê macabro e aterrorizante.

Only Lover Left Alive foi mostrado na 51ª edição do  Festival de Nova York, onde o cultuado cineasta tem fãs cativos desde seus sucessos anteriores como Estranhos no Paraíso, Daunbailó e Flores Partidas.

Tilda Swinton e Tom Hiddleston são os vampiros da vez interpretando respectivamente Eve e Adam, um casal vampiresco, que vive junto  através de séculos.

Os dois parecem tão apaixonados como se fossem recém-casados, embora seu caso de amor seja um dos mais longos do mundo.  Uma foto documenta o terceiro casamento em 1868.

Eles são sofisticados, gostam de música e literatura – seu melhor amigo é o dramaturgo e poeta Christopher Marlowe (1564-1593) – conversam  sobre velhos conhecidos como Lord Byron, admiram  galeria de fotos de heróis artísticos como Buster Keaton e Mark Twain e, nas horas vagas, “bebem” sangue purificado, ou seja vindo de fonte boa.  

Há que tomar cuidado, já que com o passar dos séculos, o sangue se transformou numa coisa perigosamente contaminada. Já deu para notar que Jarmusch mantém o seu humor refinado, numa linguagem minimalista e no estilo muito pessoal do diretor.

Enquanto Adam vive recluso numa velha casa de uma parte abandonada de Detroit, tocando  clássicos em vinil e colecionando guitarras,  Eve anda pelas  ruas de Tanger à procura de Marlowe.  Quando fazem um tour noturno no velho jaguar de Adam, encontram uma Detroit dizimada, metáfora para mostrar  como os seres humanos transformaram a sociedade.

Jarmusch diz que decidiu colocar dois atores britânicos como protagonistas porque a percepção dos ingleses sobre vampiros é excepcional, diferente das do resto do mundo.

“Até onde consigo me lembrar, as historias vampirescas na literatura vem sempre da Inglaterra.  Não sei bem explicar, mas há alguma coisa muito britânica sobre eles. Então, eu quis focar esse aspecto da questão”, afirma o cineasta explicando porque preferiu locar o filme em Tanger e Detroit.

“São dois lugares que me atraem muito por razões pessoais.  No passado, Detroit foi uma cidade misteriosa e mágica, hoje é um local com algo de trágico e depressivo.  Mas ainda tem uma cena musical inspiradora, uma coisa que é muito importante na história.  Nada foi escolhido por acaso, o  filme tem um visual musical”, lembra. 

Fazer este filme era um projeto bastante antigo do cultuado diretor.

“Na verdade, venho perseguindo a ideia  de dirigir uma historia sobre vampiros, pelo menos há sete anos. Havia muita dificuldade para obter financiamento, mas Tilda com quem eu havia falado, desde o inicio, nunca desistiu, mesmo quando tudo parecia ter ficado complicado. A concretização deste projeto deve muito a ela”, reconhece. 

Numa definição para o filme, o diretor diz que é uma história sobre a  exploração do amor no contexto da imortalidade.

“Adam é um personagem que incorpora melancolia e romantismo.  Eve é alegre, mais forte e é quem direciona o relacionamento.  É uma bela historia de duas pessoas que se amam e se aceitam uma a outra”, completa Jarmusch reconhecendo que muitos diretores influenciam seu cinema.

“Mas entre eles,  destaco o trabalho de Jean Eustache. La Mamain et la Putain (1973) é um dos meus filmes preferidos. Na mesa onde escrevo meus roteiros, tenho a foto de Jean, ele é um exemplo de pessoa na qual gosto de acreditar que estou me inspirando”, revela. 



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O RETORNO DE UM VETERANO
     
 

09.10.13

Carlos Augusto Brandão

O esquecido Bruce Dern estrela filme dirigido por Payne

Nova York

Embora tenha feito mais de 80 filmes, entre eles o clássico Amargo Regresso, Bruce Dern foi sempre coadjuvante e andava esquecido. 

Agora, aos 77 anos virou protagonista de Nebraska, novo filme de Alexander Payne, ganhou a Palma de melhor ator em Cannes e já desponta como um favorito ao Oscar em 2014.

Dern, bem como o filme de Payne, foram muito aplaudidos na 51ª edição do Festival de Nova York.

Payne, por sua vez, já tem cadeira cativa aqui, desde 2002 quando apresentou o ótimo As Confissões de Schmidt. De  lá para cá, já encerrou o evento em duas ocasiões: em 2004 com Sideways e em 2011 com Os Descendentes.

Rodado em preto e branco, Nebraska é uma crônica poética das sequelas da crise econômica de 2008 nos Estados Unidos. O próprio Payne o define como um relato da Nova Grande Depressão.

A trama narra a viagem do septuagenário Woody (Dern),  com seu filho David (Will Forte) a fim de coletar um prêmio, bem como seus encontros com parentes e amigos assombrados pelos fantasmas da recessão e do desemprego.

No meio do caminho para o local em que haverá a coleta do suposto prêmio, pai e filho precisam parar na casa da família, onde as histórias do passado se juntam à mesquinharia do presente na fórmula drama / comédia que Payne sabe equilibrar como poucos.

Com um humor melancólico, o diretor aborda não apenas a relação entre pai e filho, mas também como a crise financeira afetou o interior dos EUA e os próprios ideais do sonho americano.

Payne ressalta que não teve a intenção de traçar um painel social desse momento.

“Eu tive o roteiro pronto há nove anos quando a situação econômica era outra e, num momento que coincidiu com este, consegui filmá-lo”, conta Payne dizendo que o filme tem uma ligação forte com a realidade. 

“É uma história que é ao mesmo tempo engraçada e triste, um pouco como a vida. O autor do livro realmente viveu o que acontece na trama, então ele está descrevendo sua experiência pessoal”, enfatiza o diretor explicando a relação que pai e filho têm no filme.

“O filho quer oferecer a seu pai idoso um pouco mais de dignidade. Meus pais estão ficando numa situação semelhante e eu também gostaria que eles envelhecessem com dignidade. A velhice pode nos diminuir, e nos fazer perdê-la. Temos que cuidar para que isso não aconteça”, alerta  Payne que, para fazer o filme, precisou voltar ao seu Estado natal e isso foi essencial para que aceitasse dirigir o roteiro de Nelson. 

“Não teria feito este longa se não tivesse nascido em Nebraska, mas sou de Omaha, cidade grande. A região que retratamos era estranha mesmo para mim”, ressalva ele, revelando que histórias como as retratadas em Os Descendentes e Nebraska  tem sido seus temas preferidos.

Sobre a opção pelo P&B, Payne diz que isso se deve à época em que a história é ambientada.

“É um filme da era da depressão, por isso que eu quis fazê-lo em preto e branco”, afirma.

O diretor confessa que fazer um filme com Dern era um projeto antigo.

“Dirigi a filha dele  (Laura Dern)  no começo da minha carreira, em Ruth em Questão (1996), e desde então pensava em trabalhar com Bruce”, diz o diretor com muitos elogios para o ator. 

“Ele me ofereceu sua confiança e apoiou minhas escolhas. É a maior bênção que um diretor pode receber”, reconhece.

Dern, por sua vez, explica como Payne trabalha com os atores e como se sentiu fazendo o filme. 

“Há uma diferença de tratamento de diretor para diretor quando pede a um ator para fazer algo. Diferentemente de alguns, Payne está lá todo o tempo junto, mantém  uma equipe no local para nos ajudar a relaxar e a gente não fica com a sensação que está correndo riscos”, elogia. 

Embora tenha feito tantos filmes  Dern disse que tem a impressão de estar começando.

“É como se Nebraska fosse meu primeiro filme”, declara  o veterano ator que estava no ostracismo, rejeitado pelos estúdios por seu temperamento explosivo.



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O VELHO E O MAR
     
 

08.10.13

Carlos Augusto Brandão

Chandor mostra seu inusitado filme no NYFF

Nova York

O título acima não se refere ao famoso romance de Ernest Hemingway.   Aqui, o mar é o Oceano Índico e o velho é um personagem sem nome, interpretado pelo veterano ator e diretor Robert Redford.

Esse é o tema de All is Lost, novo filme de J.C. Chandor, grande destaque da 51ª edição do Festival de Nova York.

Ter Redford no papel era o que Chandor mais queria.  Mas ele mesmo não acreditava que conseguisse.  Após atuar e dirigir tantos filmes – alguns já clássicos – e ser  conhecido como o guru mor dos independentes por ter criado o Instituto e o Festival de Sundance, dedicado ao cinema indie, Redford já é quase uma lenda no cinema.

Chandor, no entanto, também tem suas credenciais.  All is Lost é seu segundo filme, mas sua estreia com Margin Call – O Dia antes do Fim, foi um sucesso.  Abriu o Festival de Berlim e foi indicado ao Oscar.

Assim, como conta Chandor, foi com muita confiança que ele enviou o roteiro para Redford, o convidando para estrelar All is Lost.

“Claro que, após o envio do roteiro, fiquei controlando a ansiedade, mas me surpreendi quando ele me chamou para uma reunião. Então, ele disse que a coisa era um pouco louca, meio fora de esquadro, mas que iria fazer”, conta o diretor detalhando a bizarra razão que o levou a se convencer que queria Redford no seu filme. 

“Eu tinha acabado de escrever o roteiro e estava no Laboratório do Sundance com cerca de 200 novos cineastas, e ele veio dar o discurso de boas vindas a todos. Eu estava no fundo da sala e o alto-falante atrás de mim foi desconectado. Eu mal podia ouvi-lo quando percebi que se eu tirasse a sua voz, ele teria que usar tudo o mais que tem e é muito. Aí, tive certeza que  havia encontrado o ator para o meu personagem.

Redford  é o único ator no filme e quase não diz uma palavra o tempo inteiro. Ele interpreta um homem velejando sozinho,  que um dia vê que seu iate foi perfurado em uma colisão com um contêiner de carga. Ele repara o buraco, mas esse é o primeiro de uma série de infortúnios que vai enfrentar.

Chandor conta como surgiu a ideia de fazer um filme tão diferente, com um só personagem e que passa a maior parte do tempo em silêncio.

“Eu tinha vontade de contar uma história assim desde que tinha 15 anos e levei um bom tempo para concretizar.  O que você vê no filme é tudo o que eu  imaginei  fazer.  Quando eu tenho pessoas ao meu redor, sou um tagarela, mas quando estou sozinho nunca falo, eu não converso comigo mesmo. Esse personagem sou eu. Alguém perguntou se era meu pai, não é. Realmente sou eu”, conta Chandor, que está muito satisfeito com os resultados de All is Lost.  

“Fazer um segundo filme que me deixou orgulhoso e saiu do jeito que eu queria, me faz pensar em continuar fazendo isso um longo tempo em minha vida. Acho que Redford e eu fizemos um bom trabalho”, avalia.

Redford é, de fato, a chave do sucesso do filme, um ator famoso, rosto curtido, mas com uma força muscular que dá ao filme a intensidade convincente que ele precisa. Seu desempenho é surpreendente e emblemático.

Há sequências extraordinárias do barco, da balsa salva-vidas, ondas de tempestade, com Redford dentro, tornando quase inacreditável que tenha conseguido fazer todas essas cenas.

“Ele fez quase tudo, Eu diria que há oito tomadas de um dublê. Ele é um nadador muito bom, é um atleta. Nossa única preocupação foi evitar, de todas as formas, que ele se machucasse.  Com 76 anos, teria sido uma situação trágica, perda total para a companhia de seguros porque o filme desapareceria. Nós tivemos que cuidar muito de sua segurança o tempo todo”, revela  Chandor.

All is Lost  é emocionante e comovente do início ao fim. Como já tinha acontecido em Cannes, onde passou fora de concurso, aqui também no Festival de Nova York  teve uma ótima receptividade, com muitos aplausos para o jovem diretor,  certamente com uma talentosa carreira pela frente. 



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A VIDA SECRETA DE WALTER MITTY
     
 

06.10.13

Carlos Augusto Brandão

Stiller é aplaudido e diverte a plateia no NYFF

Nova York 

Com o status de “filme destaque”,  The Secret Life of Walter Mitty,  de Ben Stiller,  foi mostrado  em première mundial na 51ª edição do Festival de Nova York.

Ken Jones, diretor do festival, destacou a satisfação de ter o filme como peça central do evento.

“Ben Stiller tornou ainda maior  o conto popular de James Thurber e construiu um épico cômico e lírico, baseado nas realidades e preocupações dos dias de hoje. Ben está ótimo no papel principal, Kristen Wiig está quase mágica como a mulher de seus sonhos e é muito bom  ver Shirley MacLaine em grande forma. The Secret Life of Walter Mitty é uma ótima viagem e fiquei emocionado de ter conseguido estrear o filme como nossa “Centerpiece”, declarou.

O filme traz para as telas a  história escrita por James Thurber (publicada pela primeira vez em 1939 no The New Yorker) sobre Walter Mitty, um sonhador que sai do anonimato e entra num mundo de fantasias cheio de heroísmo, romance e ação.  Quando seu emprego e o de sua colega (Kristen Wiig) são ameaçados, Walter cai na real e embarca numa viagem que se transforma numa aventura muito mais extraordinária do que ele poderia imaginar.

Também estão no elenco Adam Scott, Kathryn Hahn, Patton Oswalt, Sean Penn e a veterana Shirley MacLaine.

Fazer um filme sobre a vida de Walter Mitty é um projeto antigo de Stiller, desde que o roteiro original chegou às suas mãos. A proposta inicial  era fazer um remake da primeira adaptação para o cinema de 1947 – O Homem de Oito Vidas,  de Norman Z. McLeod com Danny Kaye vivendo Mitty. Mas depois o projeto tomou outro rumo.

“Li o roteiro e fiquei pensando que, excluindo os fãs mais ardorosos de Danny (Kaye) Walter Mitty não é um filme presente no imaginário do grande público. Assim, eu não conseguia ver  relevância em levar novamente aquela comédia rasgada para o cinema. Steven (Steven Conrad, roteirista de À Procura da Felicidade) e eu decidimos então criar algo completamente diferente e  mais próximo do livro de Thurber”, conta o diretor explicando porque decidiu dar outro tom ao viés humorístico da história.

“Esse é o filme que sempre sonhei fazer um dia. Queria também que fosse meu filme mais bonito e que tivesse um determinado tom. Sem problemas se ele também for engraçado, mas a comédia, desta vez está a serviço da emoção e da história do Walter. Como em meus outros filmes, o humor está presente, mas não é mais o fio condutor”, ressalta.

Stiller concorda plenamente que seu filme estabelece muitas conexões com o trabalho de Wes Anderson (Os Excêntricos Tenenbaums).    

“Desde Pura Adrenalina (1996), Wes inventou um jeito novo de filmar, com uma estética visual única. Nós dois somos fãs dos mesmos diretores, crescemos vendo os mesmos filmes. As obras de Wes e de alguns cineastas da mesma época ficaram na minha mente e conduziram minha câmera para fazer Mitty”, conclui o diretor destacando o significado de lançar seu filme no NYFF. 

“É uma honra estrear The Secret Life of Walter Mitty aqui no festival. Eu cresci há alguns quarteirões do  Riverside Drive (avenida perto do Lincoln Center), eu não poderia ficar mais feliz com a première no evento”.

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FILME SOBRE PROJETO DO GOOGLE É MOSTRADO NO NYFF
     
 

05.10.13

Myrna Silveira Brandão

O longa também foi selecionado para o Festival do Rio

Nova York

O Festival de Nova York criou nesta 51ª edição uma mostra paralela denominada Applied Science, destinada a trabalhos focados em projetos fora do convencional.

A mostra inclui  três títulos: Particle Fever, de Mark Levinson; Tim’s Vermeer, de Teller; e  Google and the World Brain, de Ben Lewis, este último exibido ontem numa concorrida sessão no Francesca Beale Theater.

O filme também integra a programação do Festival do Rio e será exibido na Mostra TEC. 

Lewis – autor de muitos documentários para tevê –  abre um grande debate sobre informação, direitos autorais  e a ética que deve ser seguida em face dos avanços tecnológicos no mundo atual.  

Locado na China, Estados Unidos, Europa e América Latina, o filme trata dos  dilemas e perigos da Internet.

O tema abordado no filme pode vir a confirmar uma previsão realizada em 1937, pelo  escritor e futurista HG Wells sobre  a criação de algo chamado “Cérebro Mundial”, uma biblioteca global gigante, que lideraria uma nova forma de inteligência e conectaria o conhecimento humano.

Setenta e cinco anos mais tarde, essa previsão pode vir a ser concretizada  através do ambicioso projeto do Google de escanear milhões de livros para o seu website  Google Books.

Seus webmasters estão em articulação com as mais prestigiadas bibliotecas do mundo e precisarão reinventar as normas do direito autoral em nome do livre acesso para todos e em qualquer lugar do planeta. 

O projeto, se for realmente concretizado,  possibilitará que todo o conhecimento fique acessível nesse chamado cérebro mundial.

No entanto, grande parte desse material  está protegido  por direitos autorais e diversos autores ao redor do mundo estão iniciando  uma campanha para pará-lo.  

Lewis diz que espera com o filme provocar  uma reflexão crítica sobre a Internet. 

“Dar informação de graça  para as pessoas pode não ser tão bom quanto parece se ela está sendo tirada de outros sem o devido pagamento ”, afirma o diretor acrescentando que, além disso,  seria uma maneira de manter sob controle todo o conhecimento disponível de forma monopolista.  

“Em última análise, o filme é sobre o que acontece quando uma das mais antigas instituições para disseminar informação – a biblioteca  – entra em contato com uma tecnologia  de ponta – a Internet – bem como com o escâner”, complementa.



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GLORIA REPRESENTA O CHILE NO NYFF
     
 

05.10.13

Carlos Augusto Brandão

Diretor fala sobre seu filme, um comovente drama sobre a solidão

Nova York


Gloria, de Sebastián Lélio, único representante sul-americano na 51ª edição do Festival de Nova York, vem acumulando sucessos.

Na edição deste ano do Festival de Berlim, o filme integrou a mostra competitiva e Paulina Garcia, que interpreta a protagonista, ganhou o Urso de melhor atriz.  

Foi um feito, já que 21 anos haviam se passado desde a última vez que o Chile havia estado  na mostra oficial do evento alemão, o que aconteceu em 1991 com La Frontera, de Ricardo Larrain. Na ocasião, o cineasta ganhou o Urso de melhor diretor.

Mostrado numa concorrida prévia para a imprensa, Gloria segue a personagem título  (Paulina Garcia), que  tem 58 anos e está solitária na vida. Para compensar o vazio, enche os dias de atividades e nas noites busca o amor no mundo das festas para solteiros adultos, onde só consegue perdas  em uma série de aventuras sem sentido.

Essa frágil felicidade em que vive se altera quando conhece Rodolfo, um homem de 65 anos, recentemente separado, que fica obcecado por ela.

Glória começa um romance, mas este se complica pela enfermidade e  dependência de Rodolfo e também por seus filhos e sua ex mulher.

Esse é o quarto filme de Lélio depois de A Sagrada Familia (2005), Navidad (2009) e O Ano do Tigre (2011).

Em entrevista exclusiva ao MCcinema Lélio disse que a seleção para o NYFF tem um grande significado.

“É importante para o filme, para mim como diretor e para a cinematografia chilena. Além disso, é  uma grande honra e  um elemento valioso para a carreira de Glória”, disse o diretor explicando o que o levou a fazer o filme.

“Eu ficava imaginando como se sentiriam mulheres próximas da velhice, solteiras num mundo que as criou para o casamento e que de repente se dão conta que estão sozinhas numa sociedade que mudou rápida e demasiadamente. Ao fazer essas perguntas para mim mesmo, procurei achar as respostas realizando o filme”,  disse Lélio que, para compor o personagem,  imaginou Gloria como uma sobrevivente. 

“Apesar de caminhar para a velhice, está cheia de ganas para viver. É uma mulher que, para enfrentar a solidão, busca o amor em festas para solteiros, mas encontra apenas uma felicidade passageira”, ressaltou.

Embora tenha  novos projetos em mente, no momento, ele prefere se dedicar ao lançamento de Glória.

“Ainda que tenha muitas ideias e esteja alinhavando alguns projetos, ainda não defini qual será o que farei depois de Glória, que no momento precisa de toda minha atenção”, disse Lélio que vê com muito otimismo a cinematografia chilena hoje.

“Acho que estamos numa boa fase, com significativo reconhecimento do público, dos festivais, da crítica e isso certamente se deve aos novos tempos vividos pela nossa sociedade.  Acho que é produto do momento histórico e social que vive o Chile desde a recuperação da democracia em 1990. Vivemos um processo de reaprendizagem, filmando muito e num momento de expansão”, celebra.



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DETALHES SOMBRIOS
     
 

05.10.13

Myrna Silveira Brandão

Denis apresenta seu filme no NYFF, também programado para o Festival do Rio

Nova York

Claire Denis é uma das mais interessantes diretoras do cinema contemporâneo.  Autora do inesquecível  35 Doses de Rum, ela está de volta ao Festival de Nova York, onde apresentou Minha Terra, África em 2009.

Les Salauds (Os Bastardos), seu novo trabalho, foi muito bem recebido ontem na prévia para a imprensa no NYFF. O filme também integra a programação do Festival do Rio, na Mostra Panorama Mundial. 
    
Livremente baseado no livro Santuário de William Faulkner Les Salauds é uma denúncia sobre os abusos de uma elite endinheirada, quase sempre ultrapassando os limites da lei e contribuindo para a desintegração moral e financeira da classe trabalhadora. 

O filme  segue Marco Silvestri (Vincent Lindon)  um capitão  de navio, que é chamado com urgência de volta a Paris por sua irmã, Sandra (Julie Bataille). Ela conta a Marco que Jacques (Laurent Grevill),  seu  marido, cometeu suicídio e o negócio da família, uma fábrica de calçados, está seriamente ameaçado.

Tomando conhecimento que o responsável pela tragédia é o  poderoso empresário Edouard Laporte (Michel Subor), Marco arquiteta um plano de vingança.  Com isso em mente, se muda para o prédio onde mora Raphaelle (Chiara Mastroianni) amante de Laporte. 

Os dois iniciam um romance, que deixa a duvida se a aproximação de Marco com Raphaelle  faz parte do seu plano.

O filme discute o retrato das mulheres como vítimas e é certamente o trabalho mais sombrio da talentosa diretora, conhecida pela riqueza de detalhes e sons inquietantes nos seus filmes.

Já na abertura, Denis e seu roteirista habitual, Jean-Pol Fargeau, preparam os espectadores para a história dramática que vão assistir. A câmera segue um homem à beira do suicídio, caminhando em seu escritório com a chuva caindo do lado de fora. A dramaticidade é acentuada pelo trabalho inigualável de Agnès Godard, cuja câmera, ao invés de seguir apenas padrões rotineiros, sempre consegue localizar pontos focais ligados à trama.

Todo o elenco está bem, mas Clara Mastroianni tem um dos seus melhores desempenhos no papel de Raphaelle, resultado que ela credita a Denis.

“Ela nos coloca em situações que nos leva a mergulhar nas questões conflitantes da trama, mas paralelamente nos dá a certeza que podemos contar com seu total apoio e envolvimento. Quando eu comecei a  atuar,  meu sonho era trabalhar com Claire Denis . Eu gosto das visões que ela tem da vida e as histórias que conta, mas também da forma como trabalha com os atores”, elogia a atriz.

Denis, por sua vez, diz que não fica satisfeita com seu trabalho quando não pode compartilhá-lo com a equipe e os atores.

“Eu odeio uma situação, na qual sou a única a acreditar e querer uma determinada cena. Eu preciso convencer a todos e, se não consigo,  fico muito mal”, afirma.

Sempre trabalhando com a mesma equipe – o  roteirista Jean-Pol Fargeau e a cinegrafista  Agnès Godard – Dennis vê vantagens, mas também alguns problemas nisso.

“Trabalhar sempre com a mesma equipe facilita as coisas, no entanto às vezes é preciso cuidado para não virar um hábito ou acabar nos entediando a todos”, filosofa ela, negando qualquer ligação ou metáfora do enredo de  Les Salauds com a situação atual da França.

“O filme é uma ficção, não há qualquer metáfora por trás dele”, assegura.

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AMOR E MORAL
     
 

05.10.13

Myrna Silveira Brandão

James Gray fala do seu novo filme no NYFF

Nova York

O diretor americano James Gray, embora bem sucedido em filmes como Fuga para Odessa (1994) e Amantes (2008), é  um cineasta mais voltado para o lado cult, já que seus filmes são considerados difíceis e nem sempre agradam à maioria dos espectadores.

Foi o que aconteceu com seu novo trabalho, The Immigrant, na sessão prévia para a imprensa da  51ª edição do Festival de Nova York. 

Escrito com o  roteirista Richard Menello – seu parceiro também em Amantes – o filme é uma ambiciosa história de amor e moral passada no início da década de 1920.

A história segue Eva (Marion Cottilard) uma polonesa que, no começo do século passado, vai para Nova York com a irmã. Em Eliss Island, porto de entrada no EUA,  elas são separadas. A irmã tem tuberculose e vai para a enfermaria do serviço de Imigração. Eva, desqualificada por conduta indecorosa no navio, é enviada para a fila de deportação.

Para não ser deportada e conseguir dinheiro para retirar a irmã da quarentena, ela acaba se envolvendo com Bruno, um cafetão / contrabandista (Joaquim Phoenix), que a leva à prostituição. É formado um triângulo quando entra em cena o mágico Orlando (Jeremy Renner)  primo de Bruno.

The Immigrant não é o melhor filme de Gray, mas tem qualidades: belas cenas, um convincente trabalho de ambientação e recriação de época e a excelente fotografia do iraniano Darius Khondji (Amor).

Para a coletiva após a projeção, acompanhado de Joaquin Phenix, Gray falou sobre o filme, as dificuldades da filmagem e como convive com as críticas. Leia os principais trechos:

Por que um filme sobre a imigração e na Ilha Ellis?

“A Ilha Ellis foi o local aonde os imigrantes chegaram entre 1920 e 1924.  Pelo menos 40% da população local, tem um membro de sua família que chegou ali naquela época. Quis abordar o tema porque sou a favor da imigração.  Acho que ela enriquece a sociedade, vitaliza a cultura e torna tudo versátil e dinâmico”. 

Houve dificuldades para filmar na Ilha?

“Sim, foi muito difícil.  O local é uma atração turística, com um museu aberto durante todo o ano. Filmávamos à noite, com enormes gruas de luz no set.  Se eu tivesse sabido disso antes, eu certamente não teria filmado lá”.

Phenix era sua primeira opção para viver o personagem?

“Grande parte de nossas vidas nós passamos envolvidos com os atores.  Com alguns deles constatamos que temos o mesmo sentimento sobre a vida, arte, comportamento humano, valores e daí em diante.  No nosso primeiro filme juntos, Phenix me mostrou que tem uma ampla gama  de emoções para oferecer”

Pretende continuar fiel ao seu universo independente e de cinema de autor? 

“Sim, pretendo. Posso dizer com orgulho que nunca fiz nenhum trabalho pensando em dinheiro. Posso errar ou acertar, mas nunca me vendi”.



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NO MUNDO DO INCONSCIENTE
     
 

30.09.13

Myrna Silveira Brandão

Kurosawa mostra seu filme no NYFF, também na programação do Festival do Rio

Nova York  

O diretor Kiyoshi Kurosawa foi responsável por aumentar o prestígio dos filmes de horror e mistério no cinema japonês desde que realizou Cure em 1997.

Em 2008, ele esteve no Festival de Nova York com Tokyo Sonata, uma comédia dramática sobre o desemprego,  bem diferente dos seus trabalhos anteriores e que, na ocasião, ganhou o prêmio da mostra Um Certo Olhar em Cannes.

Ontem, Kurosawa voltou a surpreender com Real, seu novo trabalho – na sessão prévia para a imprensa da 51ª edição do NYFF – um filme difícil de classificar, misto de ficção científica, drama e terror.

Real também está sendo mostrado no Festival do Rio (26.09 a 10.10).

Baseado no livro A Perfect Day for a Plesiosaur,  de Rokurô Inui, o filme é sobre uma desenhista de história em quadrinhos, (Haruka Ayase) que está em coma, provavelmente devido uma tentativa de suicídio. Em um procedimento médico experimental, seu marido (Takeru Satô) entra no  inconsciente dela na tentativa de acordá-la.  Mas quando uma psique se funde com a outra, o resultado pode ser preocupante. 

Kurosawa conta que houve muitas mudanças na transposição do livro para o filme, mas que a ideia de fazer isso  não foi apenas sua.

“Ela surgiu quando estávamos discutindo a história com os produtores. Nós alteramos cerca de 70% da obra. Os restantes 30% são do núcleo do livro, ou o espírito do romance original. Ficamos muito felizes  porque o autor reconheceu que este é um filme que precisaria ter mudanças na adaptação e nos deu sua bênção para isso. Somos muito gratos a ele pela compreensão”.

Real tem muitas vertentes:  é um conto de mistério, é ficção científica, é uma história de amor. Kurosawa diz que foi difícil realizá-lo e algumas sequências se tornaram um verdadeiro desafio.

“Neste filme tudo foi complicado, houve realmente muitas dificuldades, mas se eu tivesse que escolher a pior delas seria no reino do subconsciente. Era como estar em um sonho e como em sonhos você pode fazer qualquer coisa já que tudo é possível, eu tinha que fazer seleções e foi muito difícil fazê-las”, conta revelando a principal inspiração para o filme.

“Eu queria fazer um filme divertido, mas mantendo o seu sentido de mistério. Os produtores conseguiram reunir um elenco e equipe das melhores pessoas no Japão e eu sabia que seria capaz de confiar neles. Acho que este filme é diferente de qualquer outro que eu já fiz e acredito que seja verdadeiramente único. Isso tudo me levou a fazê-lo”, diz  com muitos elogios para Takeru.

“Eu gostaria de agradecer acima de tudo, ao meu jovem protagonista, eu fiquei muito satisfeito com a forma como seu talento fez deste enredo complicado uma verdadeira história de amor”, afirma.



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IMAGENS REAIS
     
 

26.09.13

Myrna Silveira Brandão

Documentário sobre afro-americanos emociona NYFF

Nova York

American Promise, de  Joe Brewster e Michèle Stephenson faz uma crítica contundente à sociedade americana, através do relato do casal de diretores sobre a experiência de Dris, filho de ambos e seu amigo Seun, afro-americanos numa escola de Nova York, a prestigiada Dalton School,  quase que exclusivamente para brancos.

Quando Dris e Seun conseguiram se matricular na instituição, Brewster e Stephenson iniciaram um projeto ambicioso para documentar a educação integral dos jovens.

Mas a alegria inicial por terem sido admitidos na Dalton School, logo se transformou numa enorme frustração, o que não impediu que eles continuassem as filmagens durante 12 anos.

Lançado no último Festival de Sundance, o filme  foi bem recebido ontem na 51ª edição do  Festival de Nova York, durante concorrida sessão prévia para a imprensa.

American Promise vai fundo em questões sobre racismo, discriminação e desigualdades sociais, trazendo à tona a luta pela identidade dos meninos afro-americanos, em uma sociedade que ainda insiste em rejeitá-los. 

Stephenson, que é advogada de direitos humanos e Brewster, que estudou psiquiatria em Harvard não hesitam em expor os  seus próprios erros e excessos durante o desenrolar do longo e tocante documentário.

Na coletiva após a projeção, Brewster, mais falante que Stephenson, respondeu às perguntas sobre o filme e como convivem com a dura realidade em torno dele.  Leia os principais trechos:

O filme é a trajetória de Dris e Seun?

“O filme não é apenas a história de dois estudantes. O filme trata de raça, privilégios e diferença de oportunidades em uma escola particular de Nova York. Na verdade, nós todos somos  produtos da diáspora africana”.

Como se sentiram durante as filmagens?

 “Ao longo de todos esses anos, vimos nossos garotos  lutando com os estereótipos, identidade, questões de raça e de classe. Enquanto isso, tivemos  que conviver com dúvidas e angústias sobre o futuro dos nossos filhos e como conciliar nossa expectativa com os obstáculos culturais e sociais que eles  estavam enfrentando”.

Qual foi o principal desafio que precisaram enfrentar?

“O maior desafio foi decidir se estávamos dispostos a  expor os meninos, os amigos e a nós mesmos revelando essa história para o mundo. No início, nosso instinto de pais nos avisava que evitássemos mostrar as nossas falhas e nossas vulnerabilidades na frente da câmera. Mas, ao longo dos anos, percebemos que empurrar as coisas para baixo do tapete não era bom.  Ao contrário, ser transparente, melhoraria  tanto o nosso país, como o  nosso desenvolvimento emocional e propiciaria a realização de  uma história poderosa”. 

Quais resultados esperam com o filme.

“Através do poder da nossa narrativa, esperamos que as pessoas adquiram uma maior compreensão da situação complicada de meninos afro-americanos. Todos nós, país, educadores e instituições nos beneficiaremos  com a compreensão dos desafios que eles enfrentaram. Em última análise, queremos tornar a promessa americana  uma realidade para todos”.

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SUCESSOS E FRACASSOS SEGUNDO OS COEN
     
 

26.09.13

Myrna Silveira Brandão

Irmãos diretores falam do seu novo filme no NYFF

Nova York

Inside Llewyn Davis, de Joel e Ethan Coen foi mostrado ontem numa sessão prévia para a imprensa no Festival de Nova York com gente saindo pelo ladrão. Os cultuados diretores tem cadeira cativa aqui e seus filmes são sempre aguardados com muita expectativa

A história é ambientada em 1961, na cena musical de NY, quando as “folk songs” predominavam e abriram caminho para Bob Dylan.

Mas essa tragicomédia não é um retrato sobre a geração de músicos politizados que ganhou fama na época. O filme acompanha o cantor fictício Llewyn Davis, na busca pela fama e algum dinheiro que, pelo menos, lhe garantisse a sobrevivência.

Davis é talentoso, mas não consegue se destacar. Mostrando sua luta na cena folk, os diretores brincam com a indústria fonográfica atual e destacam o papel da vanguarda.

Num viés de humor negro, característica da obra da dupla, o filme é inspirado no livro The Mayor of MacDougal Street, do músico Dave van Ronk, resultando numa divertida parábola sobre sucesso e fracasso.

O guatemalteco Oscar Isaac interpreta Davis e o bom elenco inclui John Goodman (ator fetiche dos Coen) e jovens estrelas como Carey Mulligan e Justin Timberlake, que também compôs músicas para a trilha.

Na coletiva após a projeção  Joel e Ethan se revezaram nas respostas para falar sobre a realização desta comédia de erros, uma característica forte da obra dos irmãos diretores.

“O filme é sobre transição, não sobre sucesso”, disse Ethan Coen. “Não queríamos falar do movimento que teve Bob Dylan como transformador, mas da cena que lhe abriu caminho”, completou Joel.

Mas Dylan, como não podia deixar de ser, é retratado discretamente ao final  do longa, cantando Farewell.

“Quisemos sublinhar sua participação no cenário que estava surgindo. Fico até desconfortável em falar o nome dele, o Monte Rushmore da música”, elogiou Joel o mais velho dos dois, com 58 anos de idade, ao lado de Ethan de 54.

Um ponto alto do filme é a ótima interpretação de Isaac que dá a medida certa para os  momentos tragicômicos que vive o personagem.

“Até Oscar aparecer, estávamos travados, pois precisávamos de um ator que tocasse e cantasse bem. Ele foi excelente, estamos convencidos que não poderia ter sido outro”, disse Ethan, autor da ideia da inclusão de um gato, que arrasta Llewyn, por uma série de trapalhadas.

“O gato surgiu para evitar que o filme ficasse só na recriação da atmosfera”, brincou o diretor  revelando que a participação do felino deu alguns problemas no set.

“O que acontece é que cachorros fazem de tudo para satisfazer as pessoas. Já os gatos não, eles estão mais preocupados em ter prazer”, contou Ethan concordando, no entanto, que o animal é um personagem importante na história.

“No fundo é isso, Davis apenas segue Ulisses, no caso, o gato”, desconversou.

Por sinal e, como se trata de um road movie,  não é por mera coincidência que o gato se chama Ulisses, uma alusão ao célebre romance do escritor irlandês James Joyce. 

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ABUSO DE FRAQUEZA
     
 

26.09.13

Myrna Silveira Brandão

Breillat fala do seu filme no NYFF

Nova York

O cinema de Catherine Breillat – Uma velha amante (2008), Barba Azul (2009),  The Sleeping Beauty (2010) entre outros –  tem sido centrado no tema da sexualidade feminina e/ou das mulheres exercitando a sua liberdade duramente conquistada num mundo cujos valores são predominantemente masculinos. 

Abuse of Weakness, seu novo trabalho, mostrado na 51ª edição do Festival de Nova York, gira em torno do tema, mas desta vez falando de uma experiência autobiográfica.

A história segue Maud (Isabelle Huppert), uma diretora recentemente acometida de uma doença, que a deixou com um lado do corpo paralisado e que se envolve numa relação destrutiva com Vilko (vivido pelo rapper Kool Shen na sua estreia), um homem que ela estava planejando colocar no elenco do seu próximo filme.

As semelhanças são todas.  Breillat sofreu um derrame em 2004 e, desde então, é portadora de doença vascular cerebral. E foi vítima de um homem que, segundo ela,  a roubou quando estavam em negociação para a participação dele num filme.

Logo após, Breillat escreveu o livro Abus de faiblesse,  que dá sua versão dos acontecimentos. Devido à doença ela afirma que não tem lembrança de ter assinado um cheque para ele. O filme é baseado no livro e na experiência pessoal de Breillat.

Na coletiva após a projeção, Breillat falou sobre o filme, seu método de trabalho e a censura em sua obra.  Leia os principais trechos:

O filme é baseado numa experiência pessoal?

“Sim, sobre uma pessoa que se aproveitou da minha  fragilidade e vulnerabilidade. Eu estava planejando dirigir um filme estrelado por ele, baseado em sua vida. A gente não imagina que vai ser vítima de um abuso, mas só quando ocorre, percebe que poderia acontecer.  Não foi difícil me enganar, ele era adorável comigo”. 

Além da experiência, há também um viés ficcional?

“Sim, embora baseado num fato real, o filme é uma ficção porque o que é realmente importante nesta história é que há uma vítima e há um algoz. É mais  interessante explicar em um filme do que no livro . No livro ninguém entendia muito o que era a mistura de fraqueza e  inteligência. Eu fui ingênua,  além de me considerar muito inteligente. Isso é bem interessante”. 

Tem sido difícil filmar ultimamente? 

“Tem sido muito difícil porque de fato estou muito doente. Quando eu termino de filmar uma cena vou para a cama descansar um pouco,  enquanto a equipe monta a iluminação para a cena seguinte. Eu estou paralisada de um lado, mas se não estiver fazendo  um filme fico sendo apenas uma pessoa com deficiência. Para mim, o cinema é verdadeiramente minha primeira paixão”. 

No seu método de trabalho, os atores tem liberdade  para improvisar?

“Claro, é muito pobre os atores fazerem exatamente o que escrevi. Peço sempre para eles proporem algo diferente, algo que me surpreenda”.

Violência e sexo fazem parte do seu cinema.  Como lida com a censura? 

“As imagens não podem ser censuradas. Não é simplesmente uma imagem, mas uma interpretação artística. Eu nunca penso sobre a violência em meu cinema, se é ou não ruim para a sociedade. O ruim é fazer o que não é honesto, o que não é verdadeiro.  No entanto, meus filmes são sempre considerados subversivos, dizem que é perigoso.  Perigoso por quê? Para quem?”


Carlos Augusto Brandão

Nova York

Burning Bush, minissérie dirigida por Agnieszka Holland, tem 234 minutos e, durante essas quase quatro horas,  manteve atenta  a plateia ontem na sessão prévia para a imprensa no Festival de Nova York.

Feita para a HBO, a minissérie é sobre os dramáticos acontecimentos ocorridos no auge da turbulência política na então Tchecoslováquia, quando  Holland era uma estudante em Praga e testemunhou muito do que aconteceu na época.

Dividida em três partes, narra as consequências políticas, legais e morais que se seguiram à morte do estudante checo Jan Palach, que em 1969 ateou fogo em si mesmo em Praga, em protesto contra a repressão do governo. 

Em seu filme, a talentosa diretora tece uma teia de conflitos entre os  profissionais da área jurídica, todos tentando ver, de alguma forma, seus próprios interesses. Apesar da maratona , o filme consegue a proeza de não  ser cansativo, alternando momentos de suspense político, romance  e drama de família com bastante habilidade na edição e na trilha sonora. 

Na coletiva após a projeção, da qual participou o MCcinema, Holland  – que está de volta ao festival, onde teve  ótima receptividade em 1997 com A Herdeira – falou de Burning Bush e do seu envolvimento  com o filme. Leia os principais trechos:

Até que ponto o filme é um projeto  pessoal?

Quando ocorreu o episódio com o Jan,  eu era uma estudante na escola de cinema FAMU  em Praga. Foi um momento muito importante da minha vida, eu diria que foi um tempo de iniciação em  vários níveis: pessoal, profissional, político, talvez tenha sido a fase de minhas melhores experiências. Eu nem diria que é uma história muito perto de mim, é muito mais, eu fazia parte dela.

Você estava em Praga no dia que Jan se imolou?

No dia 16 de janeiro eu estava na Polônia, tinha ido passar lá o Natal e o Ano Novo.  Mas quando voltei à Praga, as pessoas ainda estavam atônitas, assustadas e incrédulas.  Foi uma emoção muito forte, jamais vou esquecer.

Por que  decidiu fazer o filme?

O roteiro escrito por Stefan Hulik foi como um presente inesperado do destino.  Eu estava muito envolvida em tudo que ele aborda.

Você teve acesso aos documentos para contar essa história?

Sim, é claro, tive acesso a muitos documentos, mas grande parte foi destruída pelo governo. O filme  foi produzido pela HBO, que é um produtor muito especial. Eu me senti livre para  dirigir o filme exatamente como eu o via na minha mente antes de filmá-lo.

Houve  dificuldades por não ser da mesma nacionalidade de onde o fato ocorreu?

“Honestamente, acho que sou uma diretora eclética, faço  coisas que envolvem muitos estilos, realidades e culturas diferentes.  Mas às vezes ser um estranho na cultura pode levar a resultados vibrantes na telas. Além disso, ser diretor não é apenas impor sua visão, mas também estar aberto a outras realidades”.

Como tem sido a reação ao filme?

“Este é o primeiro longa-metragem dedicado a Jan Palach e as reações dos espectadores checos têm sido muito intensas, eles assistem e choram.  Muitos me dizem que esperaram 20 anos por este filme”

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AGNIESZKA HOLLAND IMPACTA NO NYFF
     
 

26.09.13

Carlos Augusto Brandão

Diretora polonesa fala sobre seu novo filme

Nova York

Burning Bush, minissérie dirigida por Agnieszka Holland, tem 234 minutos e, durante essas quase quatro horas,  manteve atenta  a plateia ontem na sessão prévia para a imprensa no Festival de Nova York.

Feita para a HBO, a minissérie é sobre os dramáticos acontecimentos ocorridos no auge da turbulência política na então Tchecoslováquia, quando  Holland era uma estudante em Praga e testemunhou muito do que aconteceu na época.

Dividida em três partes, narra as consequências políticas, legais e morais que se seguiram à morte do estudante checo Jan Palach, que em 1969 ateou fogo em si mesmo em Praga, em protesto contra a repressão do governo. 

Em seu filme, a talentosa diretora tece uma teia de conflitos entre os  profissionais da área jurídica, todos tentando ver, de alguma forma, seus próprios interesses. Apesar da maratona , o filme consegue a proeza de não  ser cansativo, alternando momentos de suspense político, romance  e drama de família com bastante habilidade na edição e na trilha sonora. 

Na coletiva após a projeção, da qual participou o MCcinema, Holland  – que está de volta ao festival, onde teve  ótima receptividade em 1997 com A Herdeira – falou de Burning Bush e do seu envolvimento  com o filme. Leia os principais trechos:

Até que ponto o filme é um projeto  pessoal?

Quando ocorreu o episódio com o Jan,  eu era uma estudante na escola de cinema FAMU  em Praga. Foi um momento muito importante da minha vida, eu diria que foi um tempo de iniciação em  vários níveis: pessoal, profissional, político, talvez tenha sido a fase de minhas melhores experiências. Eu nem diria que é uma história muito perto de mim, é muito mais, eu fazia parte dela.

Você estava em Praga no dia que Jan se imolou?

No dia 16 de janeiro eu estava na Polônia, tinha ido passar lá o Natal e o Ano Novo.  Mas quando voltei à Praga, as pessoas ainda estavam atônitas, assustadas e incrédulas.  Foi uma emoção muito forte, jamais vou esquecer.

Por que  decidiu fazer o filme?

O roteiro escrito por Stefan Hulik foi como um presente inesperado do destino.  Eu estava muito envolvida em tudo que ele aborda.

Você teve acesso aos documentos para contar essa história?

Sim, é claro, tive acesso a muitos documentos, mas grande parte foi destruída pelo governo. O filme  foi produzido pela HBO, que é um produtor muito especial. Eu me senti livre para  dirigir o filme exatamente como eu o via na minha mente antes de filmá-lo.

Houve  dificuldades por não ser da mesma nacionalidade de onde o fato ocorreu?

“Honestamente, acho que sou uma diretora eclética, faço  coisas que envolvem muitos estilos, realidades e culturas diferentes.  Mas às vezes ser um estranho na cultura pode levar a resultados vibrantes na telas. Além disso, ser diretor não é apenas impor sua visão, mas também estar aberto a outras realidades”.

Como tem sido a reação ao filme?

“Este é o primeiro longa-metragem dedicado a Jan Palach e as reações dos espectadores checos têm sido muito intensas, eles assistem e choram.  Muitos me dizem que esperaram 20 anos por este filme”

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O ESTRANHO FILME DE MING-LIANG
     
 

25.09.13

Carlos Augusto Brandão

Nova York - Stray Dogs, de Tsai Ming-liang, foi mostrado ontem no Festival de Nova York (27.09 a 13.10) e, como sempre acontece com os filmes do cineasta, dividiu opiniões.

Enquanto admiradores do estilo hermético do diretor aplaudiram, outros deixaram a sala antes do final da projeção.  De fato, seus filmes  não são para todos os espectadores. O diretor de Formosa é conhecido pelo uso de planos imóveis e longos,  narrativa lenta e clima pesado.

O filme concorreu ao Leão de Ouro em Veneza, onde ganhou o Grande Prêmio do Júri.

O novo filme de Ming-liang  segue um pai (Lee Kang Sheng) e seus dois filhos vagando na periferia de Taipé, se embrenhando nas matas e rios dos arredores, quase sempre na chuva.

As crianças vivem com o pouco dinheiro que o pai ganha, se alimentando com restos de alimentos vindos de shopping centers. Em um desses shoppings, uma funcionária  se encanta pela menina e acaba por salvar as crianças de um desfecho trágico.

Também como é característico nos filmes de Ming-liang, não há o desenvolvimento de uma história, as coisas vão simplesmente acontecendo.

“Eu sempre optei por este tipo de cinema e este foi provavelmente o mais difícil. Originalmente havia um roteiro sobre um homem desempregado e sua família.  O personagem permaneceu, mas  o roteiro desapareceu”, conta o diretor, que vem anunciando sua despedida do cinema.

“Muitas pessoas, especialmente os jovens, acham que fazer cinema é só diversão, mas na verdade é um monte de trabalho, literalmente trabalho manual. Então depois de 20 anos, a gente realmente se sente cansado. E isso tem a ver com a maneira como eu faço cinema, que  não é bem o estilo de Hollywood”, diz  Ming-liang,  ressalvando que obviamente também necessita ter algum retorno financeiro com seus filmes.

“Meu cinema também precisa ser  um produto comercial, não há dúvida em torno disso, mas buscar apenas bilheteria não é bom.  Se olharmos para trás, para os filmes antigos, embora alguns tenham sido fracos, havia inúmeros excelentes.  Agora parece que a grande maioria é ruim, enfim, de alguma forma, perdemos qualidade no cinema”, ressalta. 

Isso também pode ter reflexos na interpretação dos atores, mas Ming-liang só tem elogios para o desempenho do seu elenco, principalmente Lee Kang Sheng seu ator fetiche.
 
“Eu adoro trabalhar com Lee. Ele faz um monte de coisas que outros atores não querem fazer, por exemplo, eu peço para ele andar muito devagar, para  ficar parado  por horas e assim por diante.  Ele faz coisas que outros não fazem, o que dá muito realismo às cenas, ”, enfatiza.

Para o diretor, a vida atual traz muitas dificuldades para um diretor de cinema.

“Eu não gosto de fazer filmes para o sistema, o cinema como um objeto de consumo limita a minha criatividade. Às vezes, eu me sinto desorientado pela velocidade que é imposta a nós. Para mim a lentidão é uma técnica, um instrumento que ajuda a encontrar outro caminho dentro dessa desorientação”, ensina.

O diretor está de volta ao NYFF,  onde já mostrou vários de seus filmes, entre outros,  What Time is it There em 2001  e  Goodbye Dragon Inn em 2003.

Não deve ter sido atoa que seu estilo estranho e inusitado influiu no convite para integrar o projeto coletivo Cada um com seu Cinema,  que reuniu 33 diretores e teve a participação de Walter Salles, com A 8944 km de Cannes.  Ming-liang participou  com It’s a Dream.



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O PODER DA IMAGEM
     
 

25.09.13

Myrna Silveira Brandão

Diretora egípcia fala no NYFF sobre seu documentário

Nova York

Em 25 de janeiro de 2011 cerca de 50 mil egípcios ocuparam  a Praça Tahrir.  Eles queriam compartilhar sua história com o resto do mundo e as armas usadas para isso eram suas câmeras que, após violentos confrontos, acabaram por ser confiscadas.  

Esse é o tema de The Square, o poderoso documentário de Jehane Noujaim,  que teve uma calorosa recepção ontem na prévia para a imprensa da 51ª edição do Festival de Nova York. 

Noujaim e sua equipe passaram  mais de 20 meses acampados com suas câmeras em um dos lugares mais tensos do mundo para capturar imagens que, no seu filme, são mescladas com entrevistas realizadas por ela.

The Square é uma demonstração dos perigos a que se expõem pessoas em busca da liberdade de expressão no Oriente Médio e, ao mesmo tempo, um exemplo de como os documentários podem oferecer um raro raio de esperança.

Vindo do Sundance, onde concorreu na Mostra Documentário Mundial, lá tinha sido aplaudido de pé, além de conseguir a adesão de nomes como Ezra Miller e Sean Penn, que se propuseram a ajudar na sua finalização.  É que Noujaim não considera seu filme acabado e está angariando fundos para sua continuidade já, que como disse na coletiva com a imprensa, a revolução continua.

“Membros de nossa equipe estão no Egito buscando imagens da história  para serem incluídas na continuidade do filme. A edição que vocês viram é parcial, ainda há muito trabalho a fazer e nós continuamos angariando recursos para isso”, ressaltou detalhando porque o documentário ainda está inacabado.  

“Inicialmente, nossa intenção era  fazer um filme sobre a queda de um presidente e a eleição de outro. Durante as filmagens nos demos conta da enorme turbulência que afeta a região como os problemas com a Irmandade Muçulmana, os grupos que tentaram parar a revolução, daí decidimos que o filme precisava continuar vivo”, enfatizou Noujaim afirmando que, em última análise, a ideia é manter a essência que o originou.

“The Square é um filme sobre um grupo de jovens egípcios reunidos por uma revolução, e que juntos buscam encontrar um novo sentido de esperança para o país”, resumiu.

Para a diretora do ótimo Control Room, documentário que fez em  2004 sobre a Al Jazeera, a realização desses filmes traz muitos ensinamentos.

 “Aprendemos a  conhecer e valorizar nossos  direitos, aprendemos  alguns procedimentos médicos necessários em face da violência a que nos expomos e aprendemos história para não repetir os erros do passado”, concluiu Noujaim, ganhadora do prestigiado Prêmio Ted, que concede o direito de esboçar um desejo para mudar o mundo.

“A aceitação global da diversidade, mediada pelo poder do filme.  O primeiro passo? levar as pessoas a entender uns aos outros”



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O CIÚME SEGUNDO GARREL
     
 

24.09.13

Myrna Silveira Brandão

Diretor fala do seu novo filme selecionado para o NYFF

Nova York

La Jalousie  (O Ciúme),  de Philippe Garrel foi a atração ontem nas sessões de imprensa do Festival de Nova York.  Estrelado pelo  galã Louis Garrel (filho do diretor) a história é centrada  nas dificuldades do relacionamento humano

O filme segue um homem nos seus 30 anos, que vive um caso de amor com uma mulher. Mas há outra, com quem teve uma filha, que é mantida pela mãe. Embora visite sempre a criança, ele não tem recursos para sustentá-la.

Sua namorada é atriz e ele, também ator, usa todas as suas ligações e conhecimento para, em vão, encontrar personagens para ela. A história, filmada em preto e branco, caminha para um final sombrio.

Esse é o 24º longa do diretor e, além de Garrel, traz no elenco Esther Garrel (também filha do diretor), Anna Mouglalis e Rebecca Pacto, entre outros. 

Vindo de Veneza, onde concorreu ao Leão de Ouro e teve uma recepção tímida, o filme foi aplaudido aqui, onde Garrel de 65 anos é muito cultuado. Leia os principais trechos de suas declarações sobre  La Jalousie 

Esse é  um filme sobre o ciúme? 

“O ciúme se refere a um sentimento que toda gente sabe de imediato do que estamos falando.  Todo mundo já sentiu isso em sua vida, desde a infância e de várias formas.  Mas um dos principais aspectos do filme são os pais.  É um filme sobre relações, casal, pais, filhos, enfim sobre a relação das pessoas com a vida”.

Por que manteve o título Ciúme?

“O título foi dado quando eu estava escrevendo o rascunho do roteiro e ficou comigo durante os seis meses que levei para escrevê-lo. Então eu pensei que era possível mantê-lo. Eu cheguei até a pensar em chamar o filme  de Discórdia, mas logo me livrei dessa palavra ou ela de mim. O ciúme é pior do que discórdia, mas é também algo que todas as pessoas já sentiram, é um enigma e todo mundo já precisou lidar com ele”. 

E sobre os títulos dos dois capítulos: Eu mantive os Anjos e Faíscas em um Barril de Pólvora?

“Costumo fazer isso, é útil para organizar as filmagens. Às vezes eu me pergunto se deveria removê-los, mas sempre acabo querendo mantê-los, mesmo que isso não seja muito cinematográfico. 

‘Eu mantive os Anjos” é uma frase bastante misteriosa. Eu a ouvi  de um professor no Liceu, Montaigne, que foi muito importante para mim e que, no filme,  é representado pelo homem mais velho a quem Louis vai visitar, quase no final da história,  aquele que lhe diz que entende personagens fictícios melhor do que os da vida real. 

Da última vez que fui visitá-lo, ele já estava muito velho e eu lhe perguntei se ainda não acreditava em Deus.  E ele respondeu: Não, mas mantive os anjos. Ele já morreu, mas a frase ficou comigo.  No filme, ela se refere  mais ao fato de manter as crianças.  Ou seja, a ruptura entre um casal não deve envolver uma ruptura com a filha”. 

O roteiro foi escrito por Deruas Caroline, Arlette Langmann, Marc Cholodenko e você. Quatro escritores não é muito?

“Foi a  primeira vez que fiz isso e achei  interessante. Dois homens e duas mulheres. Na verdade, escrevi o primeiro rascunho em três meses, muito rapidamente. Então era só uma questão de adicionar pequenos retoques”.

Há espaço para improvisações?

“O ponto de partida é  a história que escrevemos, mas há grande liberdade em improvisar, o que escrevemos nem sempre são os diálogos que os atores falam. O que me interessa mais é a situação em si, o sentido. Mas nas filmagens, os atores têm espaço para improvisar”. 

Você teve dificuldade para dirigir Olga Milshtein, a menina que interpreta Charlotte, filha de Louis?

“No início, eu estava preocupado, nunca tinha dirigido uma criança. Mas Jacques Doillon –  que é muito melhor do que eu com crianças – ensinou a ela várias coisas, inclusive como estar na frente de uma câmera e eu me beneficiei muito com isso.  Acabei tendo com ela a mesma relação que eu tive com os outros atores.  Olga era ex aluna de Jacques”. 

Por que escolheu Jean-Louis Aubert para a música?

“Há muito queríamos trabalhar juntos, há uma espécie de continuidade na música dos seus filmes. Eu disse a ele que queria só música, sem letras e ele entendeu perfeitamente. Ouvre ton coeur (Abra seu coração) a música nos créditos finais, não foi composta para o filme. Mas Jean-Louis acabara de escrever quando falamos sobre o filme e concordamos que ela se encaixaria  muito bem”.



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NOUVELLE VAGUE ROMENA
     
 

23.09.13

Carlos Augusto Brandão

Porumboiu mostra seu novo filme no NYFF, também programado para o Festival do Rio

Nova York

Quando Policia, Adjetivo, de Corneliu Porumboiu,  foi mostrado aqui no Festival de Nova York em 2009, deixou a  certeza da qualidade do recente cinema romeno. Além dele, outros diretores já haviam passado por aqui como  Cristian Mungiu (4 Meses, 3 Semanas e 2 Dias),  Cristi Puium (A morte do senhor Lazarescu) e Califórnia Dreaming, de Cristian Nemescu.

Porumboiu agora está de volta ao NYFF com When Evening Falls on Bucharest or Metabolism (Quando a noite cai em Bucareste ou Metabolismo, em tradução literal), mostrado numa prévia para a imprensa.

O filme também integra a programação do Festival do Rio  (26.09 a 10.10), na Mostra Panorama Mundial. 

A história segue Paul (Bogdan Dumitrache)  um diretor de cinema que, no meio da realização de um filme, inicia um romance  com Alina (Diana Avramut),  uma atriz desempenhando um papel secundário.

No último dia de filmagem, ele decide reescrever o roteiro a fim de inserir uma cena de nudez com ela.  Mas no dia seguinte resolve não filmar a sequência e  liga para sua produtora  avisando que está doente e vai precisar se ausentar, o que causará problemas com a Seguradora.

Em uma longa sequência, o filme coloca em debate o receio  contemporâneo sobre o futuro do cinema na era digital. Para melhor ilustrar isso, o diretor preferiu  filmar  em 35 mm realizando poucas tomadas em tempo real, de forma a não ultrapassar o comprimento máximo da película.

O cineasta mantém  seu estilo irônico, com muitas referências ao cinema, à linguagem cinematográfica e às  motivações que muitas vezes estão subjacentes no significado do filme.

Porumboiu diz que seu cinema tem muito a ver com o que acontece na sociedade contemporânea.

“A  inspiração para meus filmes vem da observação da realidade e, principalmente, do ambiente ao meu redor”,  afirma o diretor, que se formou em administração antes de estudar direção de cinema.

Para ele, os cineastas de sua geração compartilham o mesmo gosto pelo cinema, o que pode explicar o viés atual dos filmes romenos. 

“Nós crescemos num regime político onde o cinema era uma ferramenta importante de propaganda e, talvez por isso, nossos filmes veem  procurando refletir a sociedade de maneira mais realista”, ressalta Porumboiu, reafirmando sua confiança num bom  futuro para o cinema romeno.

“Nós não criamos um movimento como a nouvelle vague francesa, mas existe um estilo predominante nos cineastas da minha geração.  Acredito, no entanto, que mais adiante cada um de nós vai explorar seu próprio universo e o cinema romeno se tornará mais diversificado, consequentemente com uma abrangência maior para todo tipo de público”, conclui.

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NOVOS CAMINHOS
     
 

24.09-13

Carlos Augusto Brandão

Desplechin fala de seu inusitado filme no NYFF

Nova York

O diretor Arnaud Desplechin esteve aqui no Festival de Nova York em 2008 com seu filme Um Conto de Natal, sobre as tensas relações de uma família que transita entre o tênue fio de amor e ódio e, nesse caminho, fala da morte, da punição, do arrependimento e do perdão.

Conhecido por diálogos que causam grande desconforto aos espectadores, o diretor francês retorna ao evento neste ano com Jimmy P: Psychotherapy of a Plains Indian, um filme completamente diferente em sua carreira de nove filmes iniciada em 1991.

Baseado num episódio real, o filme é uma adaptação do livro Reality and Dream: Psychotherapy of a Plains Indian, escrito pelo psicanalista francês  George Devereux com base em suas experiências e segue a história de um soldado  índio-americano, conhecido por Jimmy Picard (Benício Del Toro),  membro da tribo  Blackfoot.

Após a II Guerra Mundial, Jimmy é atormentado por muitos problemas psicossomáticos  como tonturas, cegueira temporária e  perda de audição. Na ausência de causas fisiológicas e com o diagnóstico de esquizofrenia, a direção do hospital decide seguir o conselho contrário de  Devereux que, como psicanalista  e antropólogo especializado em culturas nativas americanas, afirma que Jimmy não é doente mental.

O filme é a história do encontro e amizade entre esses dois homens que aparentemente não tem nada em comum. A trama expõe a exploração das memórias e sonhos da experiência de Jimmy, mostra como eles trabalham em conjunto e a cumplicidade crescente entre ambos.

Del Toro está perfeito no papel do contido Jimmy P. e Mathieu Amalric – que interpreta Devereux – transmite com brilhantismo como a ligação entre os dois acabou por formar um laço de amizade, que vai muito  além de uma relação médica e profissional.

Na coletiva após a projeção – da qual participou o MCcinema – Desplechin disse que o livro, publicado em 1951, contando como Jimmy foi  tratado no hospital militar de Topeka, Kansas, sempre o fascinou.

“Mas fazer um filme com a história foi completamente diferente”, completou o diretor que realizou um trabalho com surpreendente generosidade, através da construção de  um relacionamento humano entre dois seres humanos bastante diferentes.

Tudo funciona: os flashbacks repentinos habilmente inseridos, o diálogo inteligente e a precisa  reconstrução da época.

Alheio aos comentários de ter realizado um “trabalho anti Desplechin”, o diretor disse que sempre quis fazer filmes que fossem estranhos e pessoais.

“E sempre achei que eles eram singulares ao invés de genéricos”, ressaltou, contando que descobriu o livro de Devereux há bastante tempo e, desde então, ficou com a história em sua mente.

“Inicialmente ele me impressionou muito  por causa  do título . Quando o vi, pela primeira vez, numa livraria – Psicoterapia de um índio Plains – parecia que ele tinha sido feito para mim. Não foi tanto a parte teórica que mais me impressionou, mas o  diálogo entre um paciente e seu analista”, ressaltou explicando o viés seguido para compor a narrativa.

“O roteiro é como ler um romance e  é bem  simples: é a história de dois homens que não se conhecem,  dialogam durante muito tempo até o último adeus e nunca mais se verão outra vez”,  detalha  Desplechin  definindo  o  seu filme. 

“O foco central é a força dramática desses diálogos e  eu achei que era um bom tema para um filme”, complementou o simpático diretor, autor do ótimo  Reis e Rainhas e no qual, embora de forma diferenciada, também aborda questões ligadas ao relacionamento humano.

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ALMAS DE ARGILA
     
 

23.09.13

Carlos Augusto Brandão

Pahn fala no NYFF sobre seu filme que também integra a programação do Festival do Rio

Nova York

The Missing Picture, de Rithy Panh,  era aguardado com curiosidade aqui no Festival de Nova York, não só pela obra anterior do diretor, mas também  por ter ganhado  o Prêmio de melhor filme em Cannes na Mostra Um Certo Olhar.

Outra razão é que o novo filme de Panh, é  diferente de tudo que já se viu.  Para entender isso é preciso ter em conta que o diretor tem uma trajetória de documentarista em trabalhos  quase sempre focados nas tragédias ocorridas no Camboja, durante o regime do “Khmer Vermelho”. 

O próprio Panh, nascido na capital cambojana, passou por muitas delas durante sua infância, até  fugir do país e se transferir para a França, onde reside atualmente.

Contada  através de imagens expressivas de bonecos de argila, a história é narrada na voz de Randal Douc,  representando  um homem agora em seus 50 anos olhando para o seu  passado.

Em tom relativamente neutro, ele vai explicando os distintos episódios que afetam os  personagens, desde ações cotidianas como os trabalhos agrícolas até aqueles  mais dramáticos em face da progressiva ameaça dos guerrilheiros.

O filme é muito interessante  e a coletiva com o diretor – da qual participou o MCcinema –   elucidou muitos pontos da história. Leia os principais trechos:

Por que quis contar a sua história através de figuras de barro?

“Sei que é muito diferente dos meus filmes anteriores e fazer essas figuras não foi algo que pensamos de imediato, mas queríamos centrar a história sob o ponto de vista da criança. Além disso, essas figuras são feitas de argila e água e secam ao sol. Elas são basicamente como nós que viemos do chão e vamos voltar para o chão. Mas também é importante dizer que na cultura asiática, essas figuras não são apenas uma obra de arte, são consideradas como tendo uma alma. Por isso as  escolhemos para contar a história”. 


E qual a razão de mostrar o making of das figurinhas, ou seja, mostrar o artista as esculpindo?

“Achamos que era muito importante mostrar de onde elas vieram,  o ato da criação. É como fazer um personagem ganhar vida. A gente vê os bonecos nas mãos do escultor e é como dar uma alma para a escultura”. 

Foi também para mostrar que elas não existiam antes do filme?

“Sim, as estatuetas não existiam antes, foram criadas  junto com o escultor e foi realmente a primeira vez que ele tinha feito algo assim, porque na verdade, ele é um carpinteiro e não um escultor. Foi muito difícil porque como vocês viram, não é algo animado. As estatuetas são pequenas, fixas,  não se movem, então tivemos que movê-las, dar vida para elas”. 

O que significa a imagem forte  no início e conclusão do filme, com as ondas quebrando na areia?

“Quando estamos submersos em nossas memórias, elas vão e voltam como ondas, e é irresistível.  Às vezes, nos sentimos como se estivéssemos nos afogando  da forma como é representado nas cenas”. 

Em momentos poderosos do filme, as figuras de barro são sobrepostas em imagens de arquivo. Por que escolheu contar a sua história dessa maneira?

“Eu assisti a quilômetros de imagens de arquivo e quando eu assistia eu as mantinha  em minha memória. Então pensei que poderia fazer dessa forma.
Quando você vê, por exemplo, a cena do céu e as crianças estão voando (imagem tirada de um avião bombardeando o Camboja)  é uma forma de dizer: “Você pode nos bombardear, mas ainda podemos flutuar e voar como as crianças”. 

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MESTRE DA COMÉDIA ROMÂNTICA
     
 

22.09.13

Carlos Augusto Brandão

Às vezes é bom assistir a um filme e sair do cinema leve, feliz e amando a humanidade. Esse é mais ou menos o sentimento que prevalece após a sessão de About Time, novo filme de Richard Curtis.

Nova York
Às vezes é bom assistir a um filme e sair do cinema  leve, feliz e amando a humanidade. Esse é mais ou menos o sentimento que prevalece após a sessão de About Time, novo filme de  Richard Curtis.
 
Mostrado numa sessão prévia para a imprensa da 51ª edição do  Festival de Nova York , o filme é muito divertido e bem característico da obra do diretor, que roteirizou os ótimos Quatro Casamentos e um Funeral e Notting Hill.  
 
Bill Nighy  interpreta um pai com um poder secreto que tem sido passado de pais para filhos de sua família por gerações: eles podem viajar no tempo.
 
Visto de forma metafórica, esse é um gancho muito engraçado para uma comédia romântica no estilo do diretor britânico. 
 
Lindsay Duncan é a volúvel esposa de Nighy, mas o foco do filme está na geração mais jovem, Mary e Tim, num ótimo desempenho de Rachel McAdams e Domhnall Gleeson (Harry Potter).
Leia os principais trechos das declarações  do diretor sobre seu filme e sua intenção de se aposentar.
 
Qual mensagem quis passar com esse filme?
 
“A moral do filme, se é que há uma, é que você deve saborear cada dia de sua vida, quando as coisas estão correndo normalmente”.
 
Em sua obra e também neste filme, é dada uma grande importância à família. Tem sido intencional?
 
“Tendo perdido minha mãe e meu pai nos últimos cinco anos e com  todos os meus filhos crescendo, estou cada vez mais certo que sou um homem de família acima de tudo”.
 
O filme é biográfico?
 
“Este filme tem muito a ver com meus pais, com um irmão e uma irmã, já que tem a ver com amor. Há algumas semelhanças com a minha própria família. O personagem principal é muito próximo na forma como lida com a família, que sempre foi uma grande parte de minha vida”.
 
Por isso, a ênfase é no personagem do pai?
 
“Sim, há um monte de sentimentos sobre o meu próprio pai nesse papel e foi muito bom ter Nighy vivendo o personagem”.   
 
Sua decisão de desistir de dirigir é muito surpreendente.
 
“Bem, eu só dirigi três filmes, então eu não acho que ninguém vai sentir muito a minha falta”.  
 
Mas é verdade que esse é seu último filme?
 
“Esta produção pode ser a minha despedida dirigindo filmes, mas eu vou continuar a escrever. É uma despedida parcial, digamos assim”.
 
 Está cansado da vida de diretor?
 
“Quando estamos dirigindo um filme, precisamos passar  cerca de 1000 dias que são obsessivos. A vida de diretor é intensa, então eu estou tentando evitar a tensão, mas vamos ver como as coisas andam...”. 




 



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O DILEMA DE UMA DÚVIDA
     
 

21.09.13

Myrna Silveira Brandão

Kore-Eda apresenta seu novo filme no NYFF

Nova York

O diretor japonês Hirokazu Kore-Eda emocionou  espectadores quando lançou seu filme Ninguém Pode Saber, sobre quatro crianças que, com medo de serem separadas, permanecem na casa e  escondem de todos que a mãe as abandonou.

Ele agora volta a falar de crianças, desta vez com Like Father, Like Son, destaque das prévias para a imprensa da 51ª edição do Festival de Nova York, que abre para o público no próximo dia 27 e vai até 13 de outubro.

Vindo de Cannes, onde ganhou o Prêmio do Júri, o filme relata o drama de duas famílias ao descobrirem que seus filhos, já com seis anos, foram trocados na maternidade quando nasceram.

A historia é centrada no casal Ryota (Masaharu Fukuyama) e Midori (Machiko Ono), que educa o filho Keita para que ele seja alguém de sucesso. A outra família, de classe social inferior,  não tem planos tão ambiciosos.

A rotina familiar de Ryota e Midori, aparentemente perfeita, é rompida quando o hospital onde Keita nasceu informa que cometeu um erro, pois o menino não é filho biológico de ambos.

O que fazer? Desfazer o engano ou seguir em frente?  Essa é a grande dúvida dos pais nesse drama poderoso, mas narrado com leveza e que, em alguns momentos, tem até um pouco de humor.  Além de bastante competente, o diretor tem muita sensibilidade para expressar o imaginário infantil e as incertezas e temores dos adultos.

Kore-Eda, que aborda  de forma extremamente realista a situação das duas famílias, revela  que sua experiência como documentarista o ajudou muito na composição do roteiro e no trabalho com os atores e que, em sua obra, tem mesmo a intenção de mostrar a degradação de valores da família tradicional japonesa.

“As pessoas ainda imaginam a família japonesa com seus papéis bem definidos, como foi mostrado, por exemplo, em muitos filmes de Ozu (Yasujiro)  mas hoje a situação é bem outra”, explica o diretor confirmando que, através da história do casal, quis provocar um debate social sobre  classes separadas pela situação econômica.

“O filme aborda a questão da luta de classes, mas sem fazer dela o foco central, pois eu tento fazer da ambiguidade a ferramenta para talhar o filme”,  ressalta ,  acrescentando que, embora o longa narre uma história triste, ele quis deixar também uma mensagem positiva.

“É uma trama de perdas sim, mas ao lado das situações de angústia e tristeza,  há igualmente momentos de alegria e esperança”, pondera o  autor de belos filmes como Marobosi e Depois da Vida. 

Para Kore-Eda, a trama de Like Father, Like Son, enseja uma reflexão sobre as transformações ocorridas no seu país nas últimas décadas.

“A história abre caminhos para discutir também  temas ligados à família, à opressão da mulher no Japão e à irresponsabilidade social”, complementa.



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OS HOMENS DO LAGO
     
 

20.09.13

Myrna Silveira Brandão

Guiraudie mostra seu filme no NYFF , também programado para o Festival do Rio

Nova York

No último Festival de Cannes um dos filmes  que teve  muito sucesso com a crítica foi L’ Unconnu  du Lac, de Alain Guiraudie, que ganhou o prêmio de melhor diretor da Mostra Un Certain Regard.



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O CRIADOR DO ZERO
     
 

19.09.13

Carlos Augusto Brandão

Miyazaki mostra seu novo filme no NYFF

Nova York

Em 2008,  Hayao Miyazaki encantou o mundo com o belo A Viagem de Chihiro, adaptação de uma história de Lewis Carroll.

Considerado o mestre do cinema de animação japonês, Miyazaki tem provocado polêmicas com The Wind Rises (Kaze Tachinu), seu novo trabalho, destaque da 51ª edição do  Festival de Nova York.

No filme, Miyazaki resgata e humaniza o protagonista Jiro Horikosh (1903-1982), criador do lendário Zero, avião de caça da Marinha Imperial Japonesa durante a Segunda Guerra Mundial. 

O diretor tem sido criticado – inclusive com  manifestações nas redes sociais – por realizar um filme sobre um homem que construiu um avião que acabou se transformando numa arma de guerra poderosa.

Miyazaki se defende  afirmando que quis apenas retratar a vida de Horikoshi sem fazer julgamentos de valor; que ele era o homem mais talentoso de sua época no Japão e que, quando construiu o Zero,  não estava pensando em armas, mas apenas em desenhar aviões requintados de alta tecnologia.

“Toda uma geração de homens japoneses, inclusive eu, cresceu com sentimentos complexos sobre a Segunda Guerra Mundial e o Zero simbolizava muito isso”, afirma Miyazaki, acrescentando que inúmeros admiradores do Zero se sentem até culpados por gostar da aeronave.

“A maioria dos fãs do Zero no Japão tem hoje um complexo de derrota, com influências na sua autoestima. Ao fazer este filme, espero ter trazido  Horikoshi e  o orgulho de seu invento de volta a essas pessoas”, enfatiza.

Miyazaki ressalta que Horikoshi fez tudo o que podia, mas grande parte dos seus esforços foi em vão, a ponto de deixar escrito num desabafo que estava sendo parcialmente apontado como um dos responsáveis pela guerra, mas que não aceitava o fato. 

“Ele se dedicou completamente ao seu sonho de construir um avião bonito e eficiente, e atingiu o auge de sua carreira na década de 1930, projetando o Type 96 que aparece no filme e depois o Zero. Mas a escassez de engenheiros de guerra o obrigou a trabalhar mais, a fim de desenvolver novos aviões de combate e aperfeiçoar o Zero”, destaca Miyazaki. 

Yoshitoshi Sone (1910-2003), o engenheiro que ajudou Horikoshi no desenvolvimento do Zero, também está no filme e  teria dito, ao ver a aeronave ser utilizada para missões de guerra, que  isso era angustiante e, se  tantas pessoas iriam morrer, eles  não deveriam ter construído o avião.

Miyazaki não afasta a possibilidade de Horikoshi algum dia ter sentido a mesma coisa, mas ressalva, ao mesmo tempo, que ele sabia não ser o responsável  pela forma como o Zero passou  a ser utilizado.

“Eu também não entendo por que essa responsabilidade  deva cair em seus ombros: naquele momento ele era um engenheiro fazendo seu trabalho”, ressalta o diretor, que tinha sido aconselhado por familiares e amigos a não fazer o filme.

“Houve um momento até que pensei que estavam certos, mas soube que Horikoshi disse uma vez que tudo que ele queria era fazer algo bonito. Então eu tive certeza que tinha encontrado o tema do meu filme”, conclui.

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UM FINAL DE SEMANA EM PARIS
     
 

20.09.13

Carlos Augusto Brandão

Filme de Michell estreia no NYFF e integra também a programação do Festival do Rio

Nova York

Roger Michell é um expoente da comédia romântica. Na verdade, essa imagem já estava a caminho quando foi consolidada com Um Lugar Chamado Notting Hill, em 1999. 

Agora, junto com o roteirista Hanif Kureishi – seu parceiro em muitos filmes, como  Recomeçar (2003) e Venus (2006) – ele acabou de realizar a  comédia dramática Le Week-End, selecionada para o Festival de Nova York e que será também uma das atrações do Festival do Rio.

O filme foi muito bem recebido na sessão prévia para a imprensa no  festival nova iorquino  e marca o retorno do diretor ao evento onde esteve no ano passado, com o ótimo Um Final de Semana em Hyde Park.

Em Le Week-End, a história segue Nick (Jim Broadbent) e Meg  (Lindsay Duncan)  que  interpretam um casal de meia-idade e classe média, que vão a  Paris num fim de semana prolongado, na esperança de reacender seu relacionamento.  Sentindo o peso dos anos caírem sobre eles, nem mesmo a capital parisiense consegue animá-los.

Meg é extrovertida, exigente e  acha que merece uma vida melhor, mas se sente desprotegida sem Nick: ele, no entanto,  é tímido, melancólico e desajeitado.

Abordando sentimentos como harmonia, indiferença, frustração, alegria e resignação, o filme traça o retrato de um casamento com todas as perfeições e imperfeições de uma vida a dois.

Nick, de sua parte, tenta reacender a paixão que um dia tiveram um pelo outro,  mas Meg  parece mais interessada em aprender idiomas, tocar piano e dançar tango.

Um encontro casual reúne Nick e Meg com Morgan (Jeff Goldblum),  um escritor que no passado teve fama e fortuna. Numa sequencia em que os três jantam juntos  numa festa, o filme atinge seu auge emocional. 

O ótimo elenco colabora para o tom, típico de Michell,  ora  cômico, ora sério, da trama.  Broadbent e Duncan têm  um excelente desempenho e foram a primeira escolha do diretor.

“Os únicos atores que imaginava fazendo esses personagens eram Jim e Lindsay, porque há algo de charmoso e também de maroto neles”, filosofa o diretor que, com maestria, aborda questões  ligadas à perda, tristeza, decepção e como lidar com o amor.

A trama tinha tudo para virar um pesado dramalhão, mas  ao contrário,  Michell e Kureishi realizaram um filme inspirador e divertido. 

Um ponto alto é a construção de um final lírico e uma bela homenagem a um filme: Banda à Parte (Band of Outsiders),  de Jean Luc-Godard  (1964), que por sinal integrou a programação do NYFF naquele ano.

Michell diz que fez o filme que queria fazer e, embora não acrescente muito, arrisca uma definição direta para Le Week-End:

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UM MERGULHO NA PSIQUE HUMANA
     
 

19.09.13

Myrna Silveira Brandão

Filme de Sang-soo é atração no NYFF e também está no Festival do Rio

Nova York

Nobody’s Daughter Haewon, novo trabalho de Hong Sang-soo, foi bem recebido na prévia para a imprensa do Festival de Nova York. O filme, que havia concorrido ao Urso de Ouro em Berlim,  também está sendo mostrado na Mostra Panorama Mundial do Festival do Rio (26.09 a 10.10).
 
A história é sobre Haewon, uma estudante que está se sentindo rejeitada.  Sua mãe resolveu emigrar para o Canadá e ela decidiu terminar seu romance com um de seus professores. A protagonista é interpretada por Sunkyun Lee, em seu terceiro trabalho com o cineasta.

Haewon se envolve em outros relacionamentos e acaba se dirigindo para uma velha fortaleza nas montanhas ao norte de Seul, em busca de um caminho seguro para se reequilibrar.


O diretor diz que a principal inspiração para o filme vem da sua busca constante pela originalidade.

“Eu não gosto de repetir temas que já foram abordados várias vezes, prefiro falar daqueles inéditos, enfim dirigir meu olhar para outras direções”, destaca Sang-soo, que costuma seguir uma estrutura singular em seus filmes.   

O diretor é conhecido por filmar sem um roteiro acabado e não dar conhecimento prévio do script aos atores quando os convida a participar do elenco.

“Claro que eu preciso informar previamente o argumento para o produtor. Mas o seguimento das cenas, eu procuro definir no dia em que serão filmadas, muitas vezes inspiradas em coisas que estão acontecendo naquele momento”, ressalta. 

Quanto ao tom natural que os atores costumam ter em seus filmes, o diretor diz que isso decorre de um trabalho em conjunto. 

“Após ter delineado o perfil do personagem, eu converso com os atores e procuro me inteirar sobre suas vidas, seu passado e, muitas vezes, reformulo algumas coisas. As ideias não são imutáveis e filmar é um processo, não um produto acabado”, atesta.

Nobody’s Daughter Haewon é realizado sob a perspectiva do universo da mulher.  Diferentemente dos filmes prévios do diretor, que procurou explorar a impossibilidade de relações sob o ponto de vista dos seus heróis masculinos.  

Como suas ideias, Sang-soo é uma pessoa estranha. Estranhos são também alguns dos seus filmes, como Porta Giratória, Hahaha e A Mulher é o Futuro do Homem. 

O novo filme do cineasta sul-coreano pode ter alguns problemas na distribuição em seu país, já que vem sendo anunciado que terá uma classificação para maiores de 19 anos.



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O ÚLTIMO DOS INJUSTOS
     
 

19.09.13

Myrna Silveira Brandão

Lanzmann mostra seu documentário no NYFF, também programado para o Festival do Rio

Nova York

Le Dernier des Injustes, de Claude Lanzmann, retoma o tema do Holocausto, assunto que o diretor vem focalizando em vários dos seus filmes. 

Apesar de sua longa duração de 220 minutos, o documentário manteve a plateia atenta na 51ª edição do  Festival de Nova York, que vai até o dia 13.10.

O filme também integra a programação do Festival do Rio  (26.09 a 10.10). 

Le Dernier des Injustes tem por base a entrevista que Lanzmann  fez em 1975 com Benjamin Murmelstein para Shoah, o documentário que estava realizando na ocasião.

Murmelstein era o  Grande Rabino de Viena durante a ocupação, quando foi nomeado  para liderar o Conselho de Theresienstadt. 

Há inúmeras revelações na entrevista,  mas ao constatar sua extensa duração, Lanzmann decidiu não incluir Murmelstein em Shoah, que já estava com nove horas de duração.

“Shoah já é um épico, Benjamin  não tinha lugar nele e se eu tivesse incluído, o filme teria que ter tido 20 horas de duração”, pondera  o diretor , explicando porque resolveu retomar o projeto e realizar o documentário com Murmelstein agora. 

“As  revelações que ele me passou  naquela entrevista permaneceram o tempo todo na minha mente, nunca me deixaram. Agora achei que tinha chegado a hora de compartilhá-las”, afirma acrescentando que a postura do depoente foi fundamental para o resultado final.

“Murmelstein foi inteligente e corajoso.  Durante a semana que passei com ele, pude perceber como é sincero e tão duro com os outros como consigo mesmo”, complementa, enfatizando  que tem consciência das contradições em que se encontravam aquelas  pessoas que não tinham sido voluntárias para aquele trabalho.

“Quis mostrar com o filme que estes supostos colaboradores  não eram propriamente isso”, enfatiza,  revelando que com este filme pretende encerrar sua saga sobre o Holocausto. 

“Acho que esta  pode ser uma forma de encerrar a história sobre esse período, depois de Shoah, Sobibór, 14 Octobre 1943 e Le Rapport Karski”,  feito para a TV em 2010”, conclui o veterano cineasta de 87 anos.



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UM TOQUE DE PECADO
     
 

19.09.13

Carlos Augusto Brandão

Nova York

Tian Zhu Ding (A Touch of Sin, Um toque de Pecado em tradução literal), de Jia Zhang-Ke trata de questões relacionadas com a China contemporânea, um tema recorrente na obra do diretor chinês, em trabalhos anteriores como Plataforma, Prazeres Desconhecidos e 24 City, entre outros.

O filme foi o destaque ontem das sessões prévias para a imprensa da 51ª edição do Festival de Nova York

Conhecido por filmes contemplativos, quase documentais, o cineasta agora se volta para a violência com quatro histórias desenroladas na China contemporânea.

A primeira já dá uma ideia do que vem a seguir. Numa província distante, um homem se cansa de ver o chefe do comitê local se apropriar dos bens coletivos. Ao invés de repartir os lucros como prometera, ele compra um avião para uso pessoal.  Munido de um rifle, ele decide resolver a questão de forma trágica.

Na segunda, um jovem viajante se utiliza de um revólver para ganhar a vida. Na seguinte, a recepcionista de uma sauna apela  para a fúria no sentido de coibir o abuso dos clientes.  E na última, um homem que não para em nenhum emprego, vai ter que pagar dívidas de uma tragédia do passado.

O diretor reconhece que tem construído seus filmes no tênue limite entre ficção e realidade.

“Meus filmes têm um componente de ficção, mas com um viés  na realidade e no contexto político. Meu objetivo é contar histórias usando todas as linguagens que conheço. Eu procuro controlar todo o processo criativo do meu trabalho: escolho as histórias, escrevo os roteiros, seleciono os atores, enfim, meus filmes refletem minha opinião, meu pensamento e minhas convicções”, afirma enfatizando que sua persistência no tema vem da certeza de que o passado explica o presente.

Narrado num tom documental, o filme  torna bastante plausível a análise sociológica que Zhang-Ke faz dos problemas e angústias da população  do País.

 “A história oficial criou uma falsa imagem da China para todos e também para os próprios chineses na era Mao. Isso continua hoje, porque temos uma censura forte. Os problemas da China contemporânea têm suas raízes nesse passado”, afirma.



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JAMES FRANCO FALA DO SEU NOVO FILME NO NYFF
     
 

19.09.13

Carlos Augusto Brandão

Nova York

O ator e diretor James Franco gosta de basear seus filmes em obras literárias. Depois de As I Lay Dying , versão  para o cinema do best-seller de William Faulkner, acaba de realizar  Child of God, adaptação do livro de Cormac McCarthy e já anunciou que seu próximo projeto pode ser a transposição para as telas de O Som e a Fúria, também de Faulkner.



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TEMA RECORRENTE
     
 

19.09.13

Carlos Augusto Brandão

Kore-Eda retorna ao drama familiar em seu novo filme

Nova York
Um casal com um projeto de vida ambicioso vê sua vida desmoronar quando recebe um telefonema do hospital onde seu filho nasceu, informando que ele, hoje com seis anos, foi trocado por outro bebê na maternidade. Seu verdadeiro filho está com o outro casal que não tem o mesmo padrão de vida nem as ambições que eles projetaram para a criança. 
 
Esse drama é contado em Like Father, Like Son (Tal pai, tal filho, em tradução literal), de Hirokazu Kore-Eda, muito aplaudido ontem nas  sessões de imprensa  da 51ª edição do Festival de Nova York,  depois de ganhar em Cannes o Prêmio do Júri.
 
O diretor do aclamado Ninguém pode Saber – sobre quatro crianças que, para não serem separadas, escondem que foram abandonadas pela mãe – volta a abordar um episódio de um drama familiar específico para falar das transformações ocorridas no seu país nas últimas décadas.
 
O elenco de Like Father, Like Son tem nos papéis principais o cantor e ator Masaharu Fukuyama como Ryota, o pai bem sucedido, que, com sua meiga esposa, Midori interpretada por Machiko Ono, educa o filho Keita para que ele também siga o caminho do sucesso.
 
O diretor de 50 anos iguala adultos e crianças nas suas incertezas com a mesma  competência que demonstrou ao  retratar  o imaginário infantil em Ninguém pode Saber.
 
Kore-Eda – também autor dos belos Marobosi e Depois da Vida – explica  sua motivação para fazer o filme e seu tema recorrente sobre a família e as mazelas do seu País. Leia as principais declarações..
 
Qual a mensagem de Like Father, Like Son?
“Através da história dos dois casais eu quis provocar um debate social sobre pessoas separadas pela quantidade de ienes que possuem.  Passamos pela questão da luta de classes, mas sem fazer dela o foco central”.
 
Por que tem centrado seus filmes na questão da família e dos problemas do Japão?
 
“As pessoas ainda têm em mente a família japonesa com seus papéis bem definidos, como foi mostrado em muitos filmes de Ozu (Yasujiro), por exemplo.  Mas a situação hoje é bem diferente. Além da família, o filme também pretende abordar os temas no seu entorno, como a degradação dos valores, a opressão da mulher no Japão e a irresponsabilidade social”. 
 
Como consegue um tom tão realista, quase documental, em seus filmes?
 
“Eu fui documentarista e essa experiência tem me ajudado muito.  Neste filme, a passagem que tive pelo documentário, foi fundamental na composição do roteiro e também no trabalho com os atores”.
 
Embora tratado com leveza, o tema do filme é pesado. Que receptividade espera dos espectadores?
 
“É uma história de perdas e das dúvidas dos pais: desfazer o engano ou não? por isso tem cenas sombrias, mas ao lado das situações de angústia e tristeza,  há também momentos de alegria e esperança. Espero que os espectadores consigam identificar isso”.

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BERKELEY SEGUNDO WISEMAN
     
 

18.09.13

Myrna Silveira Brandão

Diretor fala no NYFF de seu filme também programado para o Festival do Rio

Nova York

O documentarista Frederick Wiseman tem dedicado as últimas quatro décadas para documentar a forma como as pessoas funcionam dentro das instituições. Em filmes recentes como Boxing Gym e Crazy Horse ele se concentrou em empresas relativamente pequenas. Agora, no seu novo trabalho, volta sua câmera para a  tradicional Universidade da Califórnia, em Berkeley. 

O filme  – que deu início às sessões prévias para a imprensa da 51ª edição do Festival de Nova York (27.09 a 13.10 para o público) – conseguiu prender a atenção da plateia durante quatro horas, tempo de duração do documentário.

Vindo de Veneza, onde fez sua estreia, At Berkeley é também uma das atrações do Festival do Rio, que começa no próximo dia 26 de setembro.

Wiseman e o cinegrafista John Davey estiveram na universidade durante o outono de 2010 com acesso irrestrito às salas de aula, aos protestos estudantis, às reuniões administrativas, convivendo com  professores e alunos veteranos e recém-chegados.

O  filme traça um detalhado painel de uma das maiores instituições públicas de ensino nos EUA, incluindo temas relacionados com o financiamento universitário e o futuro da educação superior no país, principalmente em face da crise econômica americana. Com excelente reputação, Berkeley atrai professores como ex-secretários do governo americano e cientistas de elite estrangeiros.

Na coletiva com a imprensa, Wiseman falou sobre o tema recorrente em sua obra, centrado no registro do comportamento das pessoas  nas instituições. 

“As sociedades têm instituições similares às que eu filmo: escolas, hospitais, prisões, exércitos, enfim, grupos dedicados a várias atividades são pontos comuns em todas.  O importante é a forma como funcionam em cada país, o que explica muito de cada sociedade”, disse Wiseman contando que não teve dificuldades em obter autorização para realizar o documentário sobre a universidade de Berkeley. 

“Poderia dizer que foi até fácil. Eu escrevi uma carta para o reitor com a proposta. Marcamos um encontro, eu detalhei um pouco mais e ele concordou com o projeto.  Tive liberdade para filmar o que quisesse e a única exceção foi uma reunião para captar verbas que, até concordo, não seria muito adequado”, reconheceu o diretor, que não gosta de explicar as mensagens que passa em seus filmes.

“Acho que essa é uma questão para os espectadores.  Não acho necessário explicar o filme porque o considero autoexplicativo.  Eu achava que se conseguisse passar um bom tempo em Berkeley faria um bom filme e tentei fazer isso.  Agora desejo que funcione”, ressaltou expondo os resultados que espera com o documentário.

“A recessão fez com que sobrassem poucos recursos para a educação pública, que por si só já tem muitos opositores.  Berkeley, que é uma das maiores universidades no mundo, vem tentando encontrar um caminho para manter bons resultados dentro da crise econômica.  Espero que o filme ajude nessa busca”, afirmou o diretor de 83 anos, ainda em plena atividade e ótima forma.



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UMA PROGRAMAÇÃO ECLÉTICA
     
 

21.08.13

Myrna Silveira Brandão

O Festival de Nova York anunciou os filmes selecionados para sua 51ª edição (27.09 a 13.10), que apresentará, mais uma vez, uma mostra bastante abrangente, com filmes de vários países e espaço para diversas cinematografias.

Ao fazer o anúncio da edição 2013, Kent Jones, diretor do NYFF, ressaltou a diversidade da seleção.

“A programação deste ano inclui documentários, biografias, comédias, aventuras, épicos, explorações e afirmações. Eu espero que os espectadores gostem tanto de vê-los quanto nós, quando os selecionamos”, afirmou Jones, na sua primeira edição à frente do evento, após substituir Richard Peña que dirigiu o NYFF por 25 anos.

A partida será dada com “Captain Phillips”,  de Paul Greengrass,  que terá sua première mundial no evento.

Tom Hanks, duas vezes ganhador do Oscar (Filadélfia, 1994 e Forrest Gump – O Contador de História, 1995) tem um excelente desempenho estrelando esse thriller de ação que focaliza a relação entre o Capitão Richard Phillips e Muse, seu adversário somaliano.  

Com locações na costa da Somália, o filme mostra a colisão inevitável de dois homens que se defrontam com forças econômicas fora do seu controle e pagam um alto preço por isso. 

Baseado no livro, A Captain’s Duty: Somali Pirates, Navy Seals, and Dangerous Days at Sea, de Richard Phillips e Stephan Talty, o filme foi roteirizado por Billy Ray.

The Secret Life of Walter Mitty,  de  Ben Stiller será  a tradicional “Center Piece”, que destaca um filme inovador selecionado pelo festival.

O filme conta a história escrita por James Thurber, publicada pela primeira vez em 1939 no The New Yorker –  sobre Walter Mitty (Stiller), um sonhador que sai do anonimato e entra num mundo de fantasias cheio de heroísmo, romance e ação.  Quando seu emprego e o de sua colega (Kristen Wiig) são ameaçados, Walter cai na real e embarca numa viagem que se transforma numa aventura muito mais extraordinária do que ele poderia imaginar.

Também estão no elenco Adam Scott, Kathryn Hahn, Patton Oswalt, Sean Penn e a veterana Shirley MacLaine.

Na programação composta por 35 longas, alguns filmes premiados em outros festivais, terão sua première americana no NYFF.  Entre outros, se destacam:

La Vie d’ Adèle, de Abdellatif Kechiche,, ganhador da Palma de Ouro de 2013 em Cannes; Inside Llewyn Davis, dos irmãos Joel e Ethan Coen, que  ganhou o grande prêmio do júri  também em Cannes; e Nebraska, de Alexander Payne, prêmio de melhor ator para Bruce Dern.  Além desses, Gloria, de Sebastián Lelio,  que deu a Pauline Garcia o Urso de Prata de melhor atriz no Festival de Berlim.

Her, de Spike Jonze, o filme de encerramento, será uma première mundial.  O filme é uma love story que explora a natureza envolvente – e os riscos – da intimidade do mundo moderno


Uma trajetória brilhante

Considerada uma das mostras cinematográficas mais importantes dos Estados Unidos, o NYFF apresentou nesses anos todos, nomes de peso do cinema mundial como Yasujiro Ozu com Dia de Outono, Jean-Luc Godard com Alphaville,   Bernardo Bertolucci com O Último Tango em Paris; Sergio Leone com  Era uma Vez na América, Akira Kurosawa com Ran, Chen Kaige com Adeus, Minha Concubina, Krzysztof Kieslowski com  A Fraternidade é Vermelha, Bela Tarr, com O Cavalo de Turim, e Luis Buñuel com O Anjo Exterminador, que abriu a primeira edição em 1963.

Além de Glauber Rocha, que também estava na programação de 1963, com Barravento, outros brasileiros passaram pelo festival,  como Cacá Diegues com Bye Bye Brasil, Sérgio Bianchi com Cronicamente inviável, Joaquim Pedro, com retrospectiva integral de sua obra e Nelson Pereira dos Santos com Memórias do Cárcere em  1984 e, no ano passado, com A Música de Tom Jobim.



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NOVO FILME DE JONZE ENCERRARÁ FESTIVAL DE NOVA YORK
     
 

09.08.13

Myrna Silveira Brandão

Her, de Spike Jonze, terá sua première mundial como o filme de encerramento da 51ª edição do Festival de Nova York (27.09 a 13.10). O filme é uma love story que explora a natureza envolvente – e os riscos – da intimidade do mundo moderno

Ao manifestar sua satisfação em ter a estreia de Her no evento, Kent Jones, diretor do festival disse que o filme é delicado, corajoso e engraçado.
“Como muitos espectadores, eu estou sempre esperando trabalhos surpreendentes  de Jonze, mas Her é algo totalmente novo em cinema. O filme – sobre pessoas solitárias e inteligência artificial – é mágico, a narrativa é de tirar o fôlego, Joaquin Phoenix continua a ser um dos atores mais originais do cinema, Rooney Mara e Amy Adams estão inesquecíveis, e a voz de Scarlett Johansson vai tocar a todos”, resumiu. 
 
Roteirizado por Jonze, Her é locado em Los Angeles, num futuro próximo, e segue Theodore Twombly (Phoenix), um homem complexo e sensível cujo trabalho é  escrever cartas pessoais e tocantes para outras pessoas. 
 
Amargurado depois do fim de um longo relacionamento, ele acessa um novo sistema virtual, onde encontra “Samantha” (Johansson), uma voz feminina brilhante, sensível e muito engraçada. Na medida em que seus desejos e necessidades crescem, a amizade dos dois se transforma em amor. 
 
Lembrando que o seu bem sucedido Quero ser John Malkovich teve sua première americana no NYFF, Jonze expressou o quanto está satisfeito com essa seleção.
“Estou muito feliz que Her tenha sua estreia na cidade de Nova York e é uma alegria retornar ao evento”, ressaltou.
 
Rose Kuo, Diretora Executiva do Filme Society of Lincoln Center também registrou o fato de ter o filme na sessão de gala de encerramento.
 “Ao lidar com marionetes tragicômicas e um homem vivendo seu caso de amor único, o visionário diretor Spike Jonze mostrou ser um poeta desse nosso mundo cada vez mais pós-humano. Estamos muito honrados de poder tê-lo conosco nesta edição”, reiterou.
 
Conforme já divulgado, Captain Phillips,  de Paul Greengrass, estrelado por Tom Hanks, terá sua première mundial como o filme de abertura do NYFF.
A programação completa deverá ser divulgada no final de agosto.

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NYYF ANUNCIA O FILME DESTAQUE DE SUA 51ª EDIÇÃO
     
 

02.08.13

Carlos Augusto Brandão

The Secret Life of Walter Mitty, dirigido por Ben Stiller, será a “Centerpiece” – destaque para um título que prima pela inovação e criatividade – do Festival de Nova York (27.09 a 13.10).


Stiller dirige e protagoniza a história clássica de James Thurber (publicada pela primeira vez em 1939 no The New Yorker) sobre um sonhador que sai do anonimato e entra num mundo de fantasias cheio de heroísmo, romance e ação.  Quando seu emprego e o de sua colega (Kristen Wiig) são ameaçados, Walter cai na real e embarca numa viagem que se transforma numa aventura muito mais extraordinária do que ele poderia imaginar.

Também estão no elenco Adam Scott, Kathryn Hahn, Patton Oswalt, Sean Penn e a veterana Shirley MacLaine.
Ao fazer o anúncio, Ken Jones, diretor do festival, destacou que o filme terá sua première mundial durante o evento. 

“Ben Stiller tornou ainda maior  o conto popular de James Thurber e construiu um épico cômico e lírico, baseado nas realidades e preocupações dos dias de hoje. Ben está ótimo no papel principal, Kristen Wiig está quase mágica como a mulher de seus sonhos e é muito bom  ver Shirley MacLaine em grande forma. The Secret Life of Walter Mitty é uma ótima viagem e fiquei emocionado de ter conseguido estrear o filme como nossa “Centerpiece”, declarou.

Stiller, por sua vez, disse que é uma honra estrear The Secret Life of Walter Mitty no festival.
“Fazer o filme com roteirista, elenco e equipe extremamente talentosos foi uma experiência maravilhosa. E tendo crescido há alguns quarteirões do Riverside Drive (avenida perto do Lincoln Center), eu não poderia ficar mais feliz com a première no evento”, ressaltou.

Rose Kuo, Diretora Executiva do Lincoln Center, destacou que Stiller tem uma grande habilidade para misturar imaginação cômica com a cultura que prevaleceu numa determina época. 

“Nós sabemos que ele cresceu aqui na vizinhança e, também por isso, estamos muito orgulhosos de dar as boas vindas para sua estreia no NYFF”, reiterou.
Conforme previamente anunciado, Captain Phillips, de Paul Greengrass, será o filme de abertura do festival, que deverá divulgar sua programação completa até o final de agosto. 

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FILME COM TOM HANKS ABRIRÁ FESTIVAL DE NOVA YORK
     
 

31.07.13

Myrna Silveira Brandão

Captain Phillips, de Paul Greengrass, terá sua première mundial como o filme de abertura do Festival de Nova York (27.09 a 13.10), que está na sua 51ª edição.

O novo filme do diretor americano – que retorna ao NYFF, onde esteve em 2002 com Domingo Sangrento –  é um thriller de ação, ancorado num excelente desempenho de Hanks, vivendo o personagem título. 
A história focaliza a relação entre o comandante do Alabama capitão Richard Phillips e Muse, seu adversário somaliano.   Locado na costa da Somália mostra a colisão inevitável de dois homens que se defrontam com forças econômicas fora do seu controle.
Ao manifestar sua satisfação em dar as boas vindas a Greengrass, Kent Jones, novo diretor do festival, disse que o filme é uma experiência única.
“Neste ponto de sua carreira, Paul Greengrass – que  se transformou num mestre em mergulhar na realidade em narrativas na área de conflitos geopolíticos –  aborda o sequestro em 2009 do navio de carga Maersk Alabama por piratas da Somália.  Eu estou orgulhoso  que este filme de ação, um verdadeiro  thriller da vida real, esteja abrindo a 51ª edição do festival”, declarou.
 
“O filme é, através das lentes de Greengrass, um tenso filme de ação e um retrato complexo dos milhares de efeitos da globalização”, completou Jones, em seu primeiro ano à frente do NYFF,  após substituir Richard Peña que dirigiu o evento por 25 anos.
Com o roteiro de Billy Ray, Captain Phillips é baseado no livro, A Captain’s Duty: Somali Pirates, Navy Seals, and Dangerous Days at Sea, de Richard Phillips e Stephan Talty.
O NYFF, como é conhecido, tem características bem definidas. Agendado estrategicamente para o mês de setembro, apresenta sempre uma  seleção do que de melhor aconteceu nos grandes festivais do ano, como Sundance, Berlim, Cannes e Veneza.
Junte a isso algumas obras pouco badaladas, mas de grande potencial artístico,  uma bem estruturada retrospectiva de um cineasta de grande importância histórica, e tem-se uma fórmula perfeita para o sucesso.    
A programação completa da 51ª edição deverá ser divulgada em torno do  final de agosto.  

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DRAMA RETRATA A VIDA DE LIBERACE
     
 

11. 11. 2013
Myrna Silveira Brandão

Behind the Candelabra, de Steven Soderbergh, está sendo mostrado na programação da HBO.
 
O filme revive a memória do pianista gay Lee Liberace (1919-1987), interpretado por Michael Douglas, que marcou o imaginário cultural pop americano durante 40 anos.
 
Douglas tem um desempenho memorável no drama verídico sobre o caso de amor do artista com Scott Thorson (Matt Damon), 40 anos mais novo que ele e que escreveu o livro homônimo, no qual o filme se baseia.

Liberace escondia a homossexualidade de seus fãs, que eram fascinados por sua extravagância em trajes, perucas e gestos, além de possuir um talento único como pianista. Sua morte por AIDS foi anunciada como um ataque cardíaco.
 
Idolatrado também pelas mulheres, o pianista se apresentava em seus concertos em Las Vegas  com anéis de ouro, peles, ternos de purpurina, capas de veludo, casacos brilhantes e onde possuía uma casa suntuosa.
 
Soderbergh diz que, quando decidiu fazer o filme, não teve a intenção de fazer qualquer análise ou julgamento do personagem.
 
“Só queria fazer essa estranha relação parecer realista e íntima”, declara o diretor, que inicialmente teve o filme rejeitado por estúdios.
 
 “Os estúdios achavam que o apelo do filme seria para o público gay. Hoje, quando olham para a crise econômica e pensam em gastar US$ 25 milhões em um filme com esse tema, acham que é um projeto arriscado. Foi preciso recorrer ao Canal de TV HBO, que acolheu o projeto e aprovou as cenas de sexo entre Douglas e Damon. A TV vive sua segunda era de ouro, não posso reclamar”, afirma Soderbergh,  que ora vem anunciando, ora vem desmentindo sua aposentadoria.
 
“Eu definitivamente vou dar uma parada após Behind the Candelabra, mas não sei por quanto tempo. Mas se este for meu último filme, posso dizer que saio orgulhoso do cinema”, despista.
 
Douglas diz que se preparou para viver o personagem se inspirando no próprio Liberace.
 
“Eu o conheci pessoalmente porque ele era vizinho de meu pai (Kirk Douglas) em Hollywood”, revela o ator contando que tinha 12 anos  quando viu Liberace pela primeira vez.
 
“Eu o achei muito estranho, com aquele cabelo fora do lugar, roupas brilhantes, gestos sofisticados”, diz lembrando que esse é o primeiro grande filme que faz desde que se recuperou de um câncer na garganta.
 
 “Vou agradecer eternamente a Steven e Matt”, concluiu o ator de personagens marcantes no cinema, alguns inesquecíveis, como Gordon Gekko de Wall Street e William Foster de Um Dia de Fúria.  
 
Outras ações para reviver a memória de Liberace estão em curso como o livro “Liberace: An unofficial biography”, de Frances Valentino, que narra detalhes dos gastos mensais astronômicos de Liberace com joias, casacos de pele e aparelhos eletrônicos para sua mãe, vivida no filme, pela octogenária Debbie Reynolds (Cantando na Chuva).
 
O livro de Thorson, por sua vez,  acaba de ganhar reedição de luxo nos EUA, revisada por seu autor.